Mãe de Copas

Durante muitos anos desconfiei que a minha mãe se tivesse inspirado no clássico de Lewis Carroll para me ter dado o nome de Alice, já que todas as máscaras de Carnaval entre os 4 e os 10 anos foram compostas por um vestido azul e por um avental branco. Não há dissociação possível, como devem calcular. Há sempre alguém que acha que todas as Alices deste mundo bebem conteúdos desconhecidos de garrafas desconhecidas, numa espécie de “bota abaixo!”.

Quando entrei na adolescência a minha teoria deu lugar a outra suspeita – não havia dia em que a senhora minha mãe não sentisse necessidade de limpar o pó às estantes lá de casa, o que, regra geral, sobrava sempre para a mim. Vistas bem as coisas, a associação à Alice no País das Maravilhas já não era tão notória quanto uma possível associação ao uniforme cliché e hollywoodesco das empregadas domésticas. Era realmente uma pena não ter um buraco por onde me atirar nesses momentos.

Somadas as duas teorias, juntamente com as aspirações a Marechal do exército da minha mãe, atrevo-me a dizer que tinha uma verdadeira Rainha de Copas lá por casa. Para os mais preocupados, a minha cabeça ainda está no sítio, descansem. Felizmente, a parte perversa sustentada por um carrasco ficou pelas páginas do livro. Mas nem tudo são galões.

Crescemos as duas, os livros e os filmes agora são outros.

Tenho perto de trinta anos e a minha rainha quase sessenta. Cada uma funciona à sua maneira, no seu habitat natural, consolidando uma teia de relações de acordo com as necessidades afetivas que tem. Foi com a minha mãe que aprendi a palavra “desapego”. Juntamente com essa, ensinou-me a não nutrir qualquer simpatia por todas as palavras que implicassem uma união, indo o leque de escolhas de “cola” a “velcro”. Nada de somas. Confesso que aqui me deu um certo gosto fugir à matemática.

Sei que esta batalha muito singular, com grande foco na primeira pessoa, se deve às suas experiências no plural. Um passado plural enfraquecido, triste, desgostoso e, acima de tudo, dividido, mas que resultou numa unidade de valor – foi ela quem me ensinou a importância do eu.

Nunca fomos muito chegadas. Cúmplices por demais (menos quando envergava vestido e espanador), melhores amigas, muito confidentes. Contudo, com uma acérrima aversão a demonstrações de carinho, quer em público, quer em privado. A partilha do cobertor no sofá era o ponto alto do nosso afeto, dia após dia.

Estando cada uma a viver na sua casa, a necessidade de estarmos uma com a outra aumentou uma vez que já não existe no dia-a-dia de ambas aquela segunda parte que nos ampara, que nos auxilia e que nos encontra soluções em todos os momentos. Hoje foi dia de irmos ao supermercado juntas.  Se pensarem bem, ir ao supermercado não acresce nada de novo ao nosso eu intelectual mas permite-nos desligar o botão do desgaste e ter umas poucas horas de conversa, enquanto se vasculham as melhores frutas da época, os detergentes mais baratos e a pasta de dentes em promoção. E foi aí que fui surpreendida.

Estávamos as duas num doloroso processo de escolher iogurtes (com ou sem pedaços, os de piña colada são bons para levar para a praia, os com pedaços são bons para comer ao pequeno-almoço, agora há uns novos com bolachas, mas no fim vão sempre os de morango na cesta), quando passam por nós outros dois exemplares de mãe e filha, por volta dos seus trinta e seis anos, respetivamente. A mãe, jovem loura e de fato vestido, transparecia um cansaço feliz. Era notório que tinha acabado mais um dia de trabalho e que a primeira coisa que fizera fora pegar no carro e ir apanhar a filha à escola. A filha, igualmente loura, de olhos muito verdes, e com umas jardineiras rasgadas nos joelhos que condiziam com uns ténis esfolados nas pontas, saltitava ininterruptamente, sem uma pausa para descansar.

Embora fizesse um esforço enorme, e visível, para que a pequena parasse quieta, a mãe não queria que a brincadeira acabasse. E sorria. Sorria para os iogurtes (a tendência, naquele caso, eram os frutos vermelhos) e sorria para a filha. Um sorriso rasgado, uns olhos bem dispostos, umas bochechas vermelhas e uma breve gargalhada espalhada pelo corredor, de vez em quando. Ao contrário destes dois exemplares de que vos falo, pairava sobre elas uma nuvem de carinho, daquelas que parecem algodão doce. Na vez em que largou uma gargalhada mais sonora que as restantes, pegou na filha ao colo, que logo prendeu os braços no seu pescoço.

Tal como eu, também a minha mãe havia contemplado todo aquele momento de ternura, o que lhe causou um conflito interior. Começou por coçar o antebraço direito, movimento que faz sempre que está nervosa, para, logo de seguida, mudar de corredor. Entrámos no mundo dos detergentes, dos produtos para limpar o pó…no inferno, portanto. Foi aí que, rodeada dos meus pesadelos de adolescente com borbulhas e de headphones nos ouvidos, a minha mãe decidiu somar o seu abraço com o meu. Aparentemente, porque mais pareceu um daqueles cumprimentos efusivos à espécie masculina, em que mostram (tentam mostrar) o quão viris são ao bater com os peitorais uns nos outros. No todo da sua trapalhice, foi um abraço sentido como já nenhuma de nós sentia há muitos anos.

Foi nesta matemática que voltei a pensar nela ao fim de tantos anos, não só como uma amiga, a quem desenrolamos o pergaminho das nossas línguas da forma mais irritante possível e tudo num fôlego só, não só como a mãe tirana, que nos obriga a tudo e mais alguma coisa e nos impede de tudo e mais alguma coisa, mas como numa mãe lutadora, cheia de vontade de viver, de conhecer o mundo fora dos detergentes, numa mãe que quer continuar a dar tudo o que tem ao produto da sua multiplicação, numa mãe que já não quer receber, apenas dar. Uma mãe renascida. Uma verdadeira mãe de copas.

Qualquer dia apresento-vos e partilho convosco mais algumas das nossas aventuras, que acredito que serão em maior número daqui para a frente.

Fica também feito o aviso à navegação – hoje à noite vamos sair. Afinal de contas (então mas não querias fugir à matemática?, perguntam vocês), um abraço sentido deve ser sempre motivo de celebração.

Até à próxima.

Alice

 

 

 

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“Todos os nomes”

Desde pequena que os nomes próprios exercem um certo fascínio sobre mim. Os seus significados não me interessam por aí além mas as diferentes combinações possíveis entre eles podem dizer muito sobre uma pessoa. Todos conhecemos uma Vanessa Soraia que, apesar da agressividade inerente ao nome, é uma rapariga às direitas.

Quando vivia agarrada às esferográficas azuis e desenhava conjuntos e conjuntos de pessoas, “manifestações” como o meu avô lhes chamava, identificava sempre as bonecas com um nome. Cada uma tinha a sua identidade, uma placa com o nome, uma espécie de BI em cima da cabeça. Não podiam era existir repetições, o que exigia uma ginástica mental intensiva para uma jovem na puberdade, que, muitas vezes, “americanizava” ou “abrasileirava” os nomes, por puro desenrascanço.

Agora que continuo de roda das mesmas esferográficas mas com outro propósito, a escrita (talvez possam ser manifestações também, mas de letras), tenho a cabeça a fervilhar de ideias, de projetos e de sonhos que, como não podia deixar de ser, também envolvem nomes próprios. Existem estórias começadas sempre em torno de um nome, há outras que se desenvolvem compulsivamente em torno da personagem principal, já que o diálogo causa-me um certo desconforto…um, uno, único. Uma estória, um nome. Um nome, uma estória.

Decidi trazer à luz do dia a Alice, a primeira metade deste projeto.

Só vos consigo revelar que será uma narradora omnipresente, ainda não sei se será loura ou morena, alta ou baixa, com sardas ou sem sardas. Também para mim será uma descoberta. Prometo que não vai demorar nove meses a nascer.

Por enquanto, a Glória, a minha Glória que surgiu depois de ouvir a música homónima da Patti Smith em modo repeat, vai continuar nas linhas de um caderno. Mas a Alice há-de chamar por ela.

Por fim, e coincidência ou não, um dos meus livros favoritos dá título a este texto. Chama-se “Todos os Nomes”, de José Saramago, e passa-se num notário. Sem nada a acrescentar.