“A viagem do elefante”

Enquanto a minha mãe abria a porta de casa depois de uma noite de conversa e de dança regada a vinho tinto, encontrei-me a observar todos os cantos da rua da minha infância onde esfolei os joelhos, todos os bancos onde me sentei a ler, a espreitar para a casa dos vizinhos, a conspirar com as minhas, também, pequenas amigas, e todas as árvores por onde tentei trepar tantas e tantas vezes mas junto das quais acabava sempre de rabo no chão e de lágrima no olho. A falta de agilidade, aliada a uma barriguinha de bebé sempre muito saliente, nunca torceram por mim, nem me ajudaram nos primeiros doze anos da minha vida. Com estas duas amigas (da onça) nunca me sentaria a congeminar ideias e partidas.

Limpei os pés ao tapete da entrada, onde um cão que vagueava pela nossa rua tantas vezes teimava em se deitar, e entrei dentro de casa. Já cá não vinha há cinco anos, fruto da minha situação profissional e dos constantes Natais passados em viagem, mas estava tudo intacto e no mesmo sítio, como se o tempo tivesse tirado férias. A minha mãe mantivera todas as quinquilharias de uma vida plural nos mesmos lugares, os livros continuavam nas estantes pela mesma ordem em que eu os tivera arrumado anos antes, a jarra das flores mantinha-se na cómoda do hall de entrada, só mudando o seu conteúdo, fragrância e cor, e o cheiro a pão continuava a pairar pelo ar. Todos os dias desde que me conheço que a minha mãe amassa farinha e coze um pão no forno ainda antes do amanhecer, o que poderá ser o verdadeiro motivo por detrás do “mini-elefante” que outrora fui. Já foi ligar o forno, como devem calcular. Já vai com umas horas de atraso.

Subi as escadas em direção ao meu antigo quarto. Lá estavam os autocolantes na porta a tentarem demover quem quisesse colocar um pé que fosse no meu território. Tinham cores quentes e fortes, mensagens agressivas ao estilo de “cuidado com o cão” com um tipo de letra muito reto, assimétrico e triangular, e continham uma bonecada assustadora…para quem tem medo de cães. Ou de gatos, porque tenho a sensação que só mesmo eu é que tinha receio de entrar no meu próprio quarto. Abri a porta e lá estavam os livros que ainda não metera em caixas para levar para o meu apartamento, o edredão azul às bolinhas brancas e as almofadas que nunca combinavam, para desgosto da minha mãe, os recortes colados à parede e os muitos desenhos que fizera, acumulados numa pasta em cima da secretária, sempre a quererem sair para fora.

Ali está também a mancha na parede, em tons de azul, que tanta conversa gerou nos jantares de família. A mancha são os restos mortais de um desenho feito por mim a lápis de cera, quando tinha quinze anos, e que foi esfregada (e bem esfregada!) pela minha rainha de copas, depois de me ter proibido de sair de casa nas semanas seguintes. Era um auto-retrato de uma jovem na puberdade, cujo sonho era percorrer o mundo de lápis na mão. Ou atrás da orelha, como os construtores civis têm por hábito fazer. O fundo do retrato tinha um mapa-múndi com as zonas de maior prioridade identificadas a um tom de azul mais carregado, que não tardei a replicar para um caderno pautado, entretanto já perdido.

O retrato desta Alice de quinze anos era francamente pessimista. Borbulhas carregadas, esborratadas com o dedo para passar melhor o efeito propagador que tinham na minha cara, um traço marcado nas pálpebras a delinear o eyeliner que usava contra a recomendação da minha avó de que de carinha lavada é que eu estava bem, uns lábios gordos e muito preenchidos dos quais nunca gostei, e que raramente desenhavam um sorriso. Cabisbaixa como sempre, de carapuço enfiado na cabeça e com um olhar distante. Um olhar dirigido a outro canto do mundo.

Sempre quis partir por estar constantemente de fora. Não se tratava de não conseguir criar laços com as pessoas, eu queria era criar laços com o mundo. Verificar se as imagens que construíra na minha cabeça desde pequena existiam verdadeiramente. Ver se o azul dos fiordes e o verde das montanhas em volta correspondiam à tonalidade da minha imaginação. Observar se o branco da neve era tão celestial como diziam, tão puro que nunca consegui encontrar um lápis cuja cor o reproduzisse na perfeição. Será que os tons de vermelho e de laranja expelidos por um vulcão em erupção eram os mesmos com que eu os continuava a pintar? Alimentava este desejo com os recortes que, muito discretamente e como se de um jogo de estratégia se tratasse, ia surripiando às revistas de coleção da minha tia. Eram centenas e centenas de revistas recheadas de recantos e maravilhas por descobrir nas mais diversas cidades e vilas do mundo, amontoadas numa divisão da casa que fazia as vezes de biblioteca. Contudo, a sede que tinha não me deixava contentar apenas com estas imagens repletas de cor…e de adrenalina.

Hoje, e enquanto recordo os meus sonhos de infância sentada ao fundo da cama, pediria ao meu eu de quinze anos para não levar a vida de forma tão cinzenta. Para tentar equilibrar o mundo colorido que idealizava com o mundo escuro em que dizia viver. Para agarrar num godé e misturar várias cores ou vários tons da mesma cor. Para ir saindo do cinzento escuro aos poucos, como se de um dégradé de cores se tratasse. Dir-lhe-ia também para, antes de ambicionar um mundo pintado a guaches de todas as cores, tirar o lápis de cor de trás da orelha e começar por colorir o mundo real dentro das linhas, fugindo aos contornos uma vez por outra. Talvez assim o auto-retrato na parede ainda por lá estivesse e, agora aos trinta, não me limitasse apenas a olhar para um borrão.

Querida Alice com quinze anos, vais conseguir correr o mundo de lés a lés nos próximos anos, por isso, levanta-te, põe um sorriso no rosto, carrega no eyeliner o quanto quiseres e vai à cozinha. Já cheira a pão acabado de cozer.

 

 

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