Oh Glória, arredonda a saia – I

Andava quase todos os dias com uma saia azul que lhe ficava uma mão abaixo dos joelhos. Uma saia muito rodada, tingida do azul do anoitecer que adivinha um dia seguinte muito quente. Como eu gostava de olhar para aquela saia e pensar que combinava com o azul do céu que vai engolindo aos poucos o cor de laranja de um dia de verão. Para mim, a Glória sempre foi sinónimo de anoitecer.

Embora passasse os dias a fazer piruetas para fazer rodopiar a saia e observar o seu movimento giratório, as suas voltas e contravoltas, era raro vermos a Glória a correr no meio da rua juntamente com as outras crianças. Preferia ficar no nosso banquinho de eleição e só se levantava para apanhar alguma flor, cuja cor lhe despertara a atenção (ou os sentidos), despindo-a de pétalas, logo de seguida. Dispunha uma a uma no seu colo, em cima da saia azul. Olhar para ela naqueles momentos era como contemplar um céu cheio de nuvens em tons de vermelho, cor de laranja ou amarelo.

Sempre foi a menina mais cabisbaixa e reservada de toda a rua, vivendo num mundo paralelo ao nosso. Sim, também pintava as solas brancas dos ténis com marcadores, como nós, mas sempre com flores. Mais tarde aprendi que quem desenha flores com alguma frequência tem uma tristeza do tamanho do céu azul dentro de si. Gostava de ficar a olhar para nós durante o dia, a imaginar pequenas histórias em que nos movia consoante a sua imaginação, quase como se fôssemos peças de um jogo de tabuleiro. Tal como a saia azul, a sua imaginação não parava de andar às voltas. Um pouco antes das nossas mães nos chamarem para jantar, cada uma à sua porta, partilhava connosco as aventuras que aquele dia nos tinha reservado.

O nosso grupo de cinco meninas sentava-se no banco junto dela (umas tinham sorte e ocupavam os lugares sentados, outras encavalitavam-se nas costas de madeira desgastada do mesmo) e ouvia muito atentamente o que a pequena contadora de histórias de saia azul tinha para nos dizer. Tão depressa nos transportava para mundos circulares em tons de amarelo, nos quais uma de nós corria loucamente em cima de uma bola de plástico de grandes dimensões da qual não podia cair sob o risco de vermos a nossa rua atingida por um meteoro, como nos elevava ao estatuto de cavaleiras das nuvens, que se moldavam em formato de cavalo assim que avistavam as nossas capas cor de rosa e as nossas espadas feitas com ramos de árvores, cheios de folhas verde vivo.

Tanto eu como as outras meninas adorávamos a Glória do anoitecer. Com ela tudo era colorido, exceto ela própria. Ainda hoje desconfio que via a saia em tons de azul escuro, um azul de noite cerrada.

 

Alice

 

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