Querida Glória

Querida Glória.

É Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Prepara-te que por aqui os rituais da véspera estão a ser uma loucura.

Passados dez anos, a minha mãe lá decidiu regressar a casa da minha avó para passar um Natal muito diferente dos anteriores. A minha ausência frequente nesta época do ano agravou ainda mais o afastamento entre as duas e só veio ajudar a criar as condições ideais para que se acomodasse às quatro paredes daquela que ainda é a nossa casa, encaixada nas velhas almofadas do sofá, debaixo de uma mantinha, rodeada por caixas de papel de alumínio daquele chinês take-away de torcer o nariz (sim, aquele que já existia quando éramos miúdas), e com um qualquer filme como banda sonora de fundo. Na verdade, ela só vê os primeiros cinco minutos, mas está sempre a dizer que já viu o Armageddon umas vinte vezes e que o Bruce Willis vai ser sempre um dos homens mais charmosos à face da terra (vão se lá perceber as mães); no entanto, aposto que se lhe perguntar o que é que acontece ao Ben Affleck lá pelo meio (vão se lá perceber as filhas), ela não vai fazer a mais pálida ideia.

Engendrei o reencontro todo na minha cabeça, mas foi mais simples do que estava à espera. No meio de toda a casmurrice (das duas, sempre das duas… lembras-te de comentar contigo que se fossem mãe e filha não eram tão iguais? Continuam tal e qual.), lá cederam à minha insistência e recordaram o porquê de sempre terem gostado tanto uma da outra e tudo o que já ultrapassaram juntas. Um abraço, uns quantos beijinhos e muita choradeira depois, lá selaram o acordo e combinaram que a minha mãe só tinha que levar umas azevias e conseguir com que eu fosse também (ao que parece, estiveram até ao último minuto à espera de um qualquer telefonema do meu chefe a marcar uma reunião no outro lado do mundo, quando eu lhes disse uma mão cheia de vezes que tinha tirado férias este ano). Tudo fácil, aparentemente.

Contudo, não seria um Natal próspero e feliz sem alguma confusão e berreiro à mistura. Estamos cá há um par de horas e eu não devia ter pensado que ia conseguir estar a tarde toda à lareira com as minhas primas mais novas, a contar histórias antigas e a magicar jogos para as longas horas que ainda faltam enfrentar até chegar o momento de rasgar papel. Deveria ter percebido que isso nunca iria acontecer, a partir do momento em que a minha mãe passou a ombreira da porta e viu a minha tia a carregar uma travessa cheia de filhós e fatias douradas, cujo cheiro ainda se sentia no ar. Toda aquela atmosfera a fritos deixou logo a senhora minha mãe num alvoroço interior, capaz de virar do avesso o seu sistema nervoso. Depois chegaram os meus primos mais velhos e trouxeram com eles os seus filhos bebés, cujos passatempos se dividiam entre chorar, atirar comida ao chão e gritar uns com os outros. Para quem não come fritos (sim, o crepe do chinês é a exceção, pelo menos a única de que tenho conhecimento) e não está propriamente desejosa de ser avó, começou tudo a correr como menos esperava. Está, neste momento, sentada no sofá agarrada ao dedo indicador que cortou enquanto preparava as couves para o jantar e já me expulsou da sala umas quantas vezes. Não quer que me preocupe e vai lançando uns sorrisos amarelos ao resto da família, para que pensem que está a adorar ter duas das pequenitas aos seus pés, a abanarem os barretes de Natal com guizos que têm na cabeça.

Mais cinco minutos e o desespero vai levá-la em direção à garrafa de vinho do Porto que está em cima da mesa, a encher um cálice e a bebê-lo de um trago só. Seguido de outro. Esperemos que substitua o terceiro por uma filhó polvilhada em excesso por açúcar e canela. Ou duas, ou três. Sei que a partir do momento em que ceder ao aroma impregnado no ar, as fatias douradas e as azevias também irão parar à sua frente. Para terminar, imagina só o que vai acontecer quando souber que queremos ir todos em peregrinação ver as várias fogueiras a arderem pela aldeia. Espero que por essa altura o vinho do Porto já faça efeito.

Querida Glória, é Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Desculpa-me a loucura destas palavras escritas em cima do joelho, mas tenho saudades de partilhar todos estes momentos contigo e de me rir deles ao teu lado. E não há nada como os descrever enquanto vão acontecendo, enquanto a minha mãe sucumbe à confusão e ao não menos caótico espírito natalício.

Um Feliz Natal. Onde quer que estejas.

Alice

Menina das tranças pretas

Depois das manhãs de missa (sim, vamos continuar a assumir que era mesmo missa, não um qualquer cochicho no banco da frente da Igreja sobre o assunto da semana na escola, e cuja duração coincidia exatamente com a hora e meia da celebração… a vida, realmente, está cheia de coincidências) e do gelado que nos sabia pela vida, especialmente por todos os castigos da semana, arredávamos pé de junto das saias das nossas mães e íamos para casa de uma das meninas do grupo (encantador visto de fora, devastador visto de dentro) destruir almofadas, loiça da cozinha e cabelo das bonecas, tudo o que servisse os nossos crescentes e sedentos, mas infantis, desejos de vingança. Tendíamos muito mais para o devastador, com toda a certeza. O nosso domingo resumia-se a uma manhã de calma (aparente) para uma tarde de demonstrações muito pouco pacíficas.

Ainda hoje penso que toda esta mágoa e revolta contida em nós se devia à estranheza com que éramos olhadas pelos outros alunos da escola, em especial por aqueles diferentes e curiosos, os feios e giros ao mesmo tempo, os do sexo masculino, claro está. Não consigo encontrar melhor razão para um grupo de meninas com pouco mais de dez anos quererem fazer pontaria às paredes com pratos da cozinha e com os belos bibelôs de coleção da Vista Alegre, pintados à mão em tons de azul e que tão bem combinavam com tudo o que figurava nas salas de estar da altura (se procurar bem, ainda encontro uns quantos em casa da minha mãe). Das duas uma, ou os culpados foram os futuros homens ou a luta pelos direitos das mulheres. Começámos cedo.

Isto na maioria das memórias que guardo das idas aos locais sagrados de cada uma de nós, aqueles quartos sarapintados de cores por tudo o que era objeto ou adereço. De todas as outras peregrinações, mais ponderadas, recordo apenas uma na perfeição – a tarde em que entrançámos os cabelos compridos (mãe que era mãe não autorizava nada que não fosse uma cabeleira farta e com uns quantos quilómetros) umas às outras, depois de umas quantas tentativas frustradas de permanentes caseiras (filha que era filha utilizava os rolos e a touca do cabelo da mãe).

Estávamos todas na casa da Cecília, uma menina mais nova que teimou em se sentar sempre ao nosso lado à hora de almoço, sem dar por nada do que se passava à nossa volta, concentradas naquela brincadeira tão de menina, que nem parecia nossa. Qualquer pessoa que entrasse no quarto e ficasse parada a observar aquele cenário, associaria de imediato a gravura a uma fábrica de produção em série. Cinco raparigas de pequena estatura, sentadas em fila, uma a seguir à outra, de pernas à chinês e com as mãos num movimento elegante, metódico e de elevada velocidade, como se aquele fosse o seu trabalho de todos os dias, o seu ganha-pão. Foi necessário muito treino ao longo dos nossos primeiros anos para que conseguíssemos atingir tamanha perícia. Hoje já não sei se sucederia nesta missão.

Madeixa a madeixa, lá se deixavam ver as tranças, com as suas combinações de tons muito característicos de cada uma. As que mais me impressionavam na altura eram as tranças nos cabelos loiros, uma madeixa mais escura a sobrepor-se a uma madeixa mais clara, mais queimada pelo sol, presas com os mais diversos elásticos coloridos, que acabariam sempre por desaparecer para um qualquer buraco negro doméstico. No entanto, são os cabelos negros e muito lisos da Glória que tenho cravados na memória. Raramente os penteava e andava sempre com eles soltos, capazes de acompanhar os seus movimentos mais graciosos e os seus movimentos menos cuidados, por isso a trança com que os enfeitamos foi uma vitória para todas. E melhor ainda, era a trança que mais se destacava no meio de todas, a trança cujas voltas conseguiam entrever pequenos laivos azulados.

Em jeito de brincadeira, dizíamos que a Glória se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia, por deixar esvoaçar o seu cabelo escuro e desgrenhado ao sabor dos dias. As suas roupas escuras (a saia azul foi sempre exceção), o seu comportamento mais contido, os seus movimentos silenciosos e o seu ar cabisbaixo completavam o leque dessa suposição. Ela deixava-se rir deste nosso disparate e, por vezes, brincava com o assunto, uivando para a lua enquanto conversávamos nos bancos lá da rua. Curiosamente, o cabelo da Glória entrançado recordava-nos uma noite de lua cheia, com os seus raios de luz lunar a encherem a escuridão das noites. Não estranhei, portanto, quando, após uma das noites de lua cheia no ano da nossa maioridade, ela decidiu desaparecer, não deixando nenhum raio dessa luz para trás.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 15 de dezembro de 2016