Menina das tranças pretas

Depois das manhãs de missa (sim, vamos continuar a assumir que era mesmo missa, não um qualquer cochicho no banco da frente da Igreja sobre o assunto da semana na escola, e cuja duração coincidia exatamente com a hora e meia da celebração… a vida, realmente, está cheia de coincidências) e do gelado que nos sabia pela vida, especialmente por todos os castigos da semana, arredávamos pé de junto das saias das nossas mães e íamos para casa de uma das meninas do grupo (encantador visto de fora, devastador visto de dentro) destruir almofadas, loiça da cozinha e cabelo das bonecas, tudo o que servisse os nossos crescentes e sedentos, mas infantis, desejos de vingança. Tendíamos muito mais para o devastador, com toda a certeza. O nosso domingo resumia-se a uma manhã de calma (aparente) para uma tarde de demonstrações muito pouco pacíficas.

Ainda hoje penso que toda esta mágoa e revolta contida em nós se devia à estranheza com que éramos olhadas pelos outros alunos da escola, em especial por aqueles diferentes e curiosos, os feios e giros ao mesmo tempo, os do sexo masculino, claro está. Não consigo encontrar melhor razão para um grupo de meninas com pouco mais de dez anos quererem fazer pontaria às paredes com pratos da cozinha e com os belos bibelôs de coleção da Vista Alegre, pintados à mão em tons de azul e que tão bem combinavam com tudo o que figurava nas salas de estar da altura (se procurar bem, ainda encontro uns quantos em casa da minha mãe). Das duas uma, ou os culpados foram os futuros homens ou a luta pelos direitos das mulheres. Começámos cedo.

Isto na maioria das memórias que guardo das idas aos locais sagrados de cada uma de nós, aqueles quartos sarapintados de cores por tudo o que era objeto ou adereço. De todas as outras peregrinações, mais ponderadas, recordo apenas uma na perfeição – a tarde em que entrançámos os cabelos compridos (mãe que era mãe não autorizava nada que não fosse uma cabeleira farta e com uns quantos quilómetros) umas às outras, depois de umas quantas tentativas frustradas de permanentes caseiras (filha que era filha utilizava os rolos e a touca do cabelo da mãe).

Estávamos todas na casa da Cecília, uma menina mais nova que teimou em se sentar sempre ao nosso lado à hora de almoço, sem dar por nada do que se passava à nossa volta, concentradas naquela brincadeira tão de menina, que nem parecia nossa. Qualquer pessoa que entrasse no quarto e ficasse parada a observar aquele cenário, associaria de imediato a gravura a uma fábrica de produção em série. Cinco raparigas de pequena estatura, sentadas em fila, uma a seguir à outra, de pernas à chinês e com as mãos num movimento elegante, metódico e de elevada velocidade, como se aquele fosse o seu trabalho de todos os dias, o seu ganha-pão. Foi necessário muito treino ao longo dos nossos primeiros anos para que conseguíssemos atingir tamanha perícia. Hoje já não sei se sucederia nesta missão.

Madeixa a madeixa, lá se deixavam ver as tranças, com as suas combinações de tons muito característicos de cada uma. As que mais me impressionavam na altura eram as tranças nos cabelos loiros, uma madeixa mais escura a sobrepor-se a uma madeixa mais clara, mais queimada pelo sol, presas com os mais diversos elásticos coloridos, que acabariam sempre por desaparecer para um qualquer buraco negro doméstico. No entanto, são os cabelos negros e muito lisos da Glória que tenho cravados na memória. Raramente os penteava e andava sempre com eles soltos, capazes de acompanhar os seus movimentos mais graciosos e os seus movimentos menos cuidados, por isso a trança com que os enfeitamos foi uma vitória para todas. E melhor ainda, era a trança que mais se destacava no meio de todas, a trança cujas voltas conseguiam entrever pequenos laivos azulados.

Em jeito de brincadeira, dizíamos que a Glória se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia, por deixar esvoaçar o seu cabelo escuro e desgrenhado ao sabor dos dias. As suas roupas escuras (a saia azul foi sempre exceção), o seu comportamento mais contido, os seus movimentos silenciosos e o seu ar cabisbaixo completavam o leque dessa suposição. Ela deixava-se rir deste nosso disparate e, por vezes, brincava com o assunto, uivando para a lua enquanto conversávamos nos bancos lá da rua. Curiosamente, o cabelo da Glória entrançado recordava-nos uma noite de lua cheia, com os seus raios de luz lunar a encherem a escuridão das noites. Não estranhei, portanto, quando, após uma das noites de lua cheia no ano da nossa maioridade, ela decidiu desaparecer, não deixando nenhum raio dessa luz para trás.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 15 de dezembro de 2016

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