A curiosidade matou a abelha

Conheci a Glória no corredor que une os nossos dois apartamentos naquele quinto andar de curtas dimensões e sem elevador. Já tinha passado por ela duas ou três vezes, principalmente quando nos cruzávamos um a subir e outro a descer aquelas escadas eternas. Só por uma vez a encontrei à porta de casa e aí percebi que a vizinha com quem menos contacto tinha era a minha vizinha mais próxima.

Sempre foi de parcas palavras e de parcos grunhidos também. Talvez a sua interação social predileta fosse um ligeiro movimento com a cabeça, que teimou em pôr em prática nas poucas situações em que esbarrámos um no outro. Era um rápido inclinar da cabeça para cima, que passados dois segundos já estava novamente na sua posição natural. Consegui interpretá-lo como um “’tão, ‘tá tudo?”, como diriam os meus primos mais novos ou mesmo eu, quando a formalidade de um cumprimento não se impõe, ou como um “’tarde”, bem ao jeito de um velhote sentado num banco do jardim ou debaixo de um sobreiro por esse interior do país fora. Não passava disto e as minhas respostas, ao início efusivas, de elevados decibéis e acolhedoras, começaram a corresponder ao mesmo nível de entusiasmo, com um simples levantar de mão e um aceno um pouco murcho. Durante o primeiro ano em que por aqui vivi, eram assim as nossas conversas de circunstância. De grunhido em grunhido ou de aceno em aceno, confesso ainda assim que as preferia ao constante balbuciar de novidades fresquinhas da vizinha do segundo andar.

A primeira troca de palavras mais prolongada que travámos foi por pura necessidade. Aprendi mais tarde que com a Glória não há como comunicar de outro modo – trata-se tudo de dependência. É a primeira a dar um cigarro ou um litro de leite, de acordo com o contexto, mas não lhe perguntem sobre que filmes tem visto ou se leu determinado livro. O mais certo é um virar de costas, não intencional, mas fruto de uma ausência de caráter sociável da sua parte. Tinha acabado de subir o último maldito lance de escadas que leva ao afamado andar onde vivo quando me deparo com ela no corredor a barafustar e a esbracejar, de mata-moscas na mão e porta de casa aberta. A sua presença física estava diferente daquela com que me deparava por breves momentos. Para além do cabelo preso no alto da cabeça, em contraste com o seu sempre cabelo solto, liso e caído sobre os ombros de cada vez que saía de casa, os seus olhos negros não transpareciam a distância habitual, estando sim apavorados e à beira do desespero. A roupa que envergava também era bastante diferente das suas escolhas do dia-a-dia, fugindo ao seu neutro quotidiano, sem qualquer tipo de padrões, tendo vestida uma t-shirt com o nome de uma qualquer banda, que ainda hoje me escapa ao conhecimento, estampada. Lembro-me de pensar que esta versão “de trazer por casa” da Glória talvez fosse o seu verdadeiro eu.

Nesse dia ainda não sabia o seu nome, mas não hesitei em perguntar se precisava de ajuda. Não sei se teve que engolir em seco o seu orgulho, nunca quis comentar com ela a situação, mas a verdade é que não perdeu nem um segundo a dizer-me que sim, a passar-me o mata-moscas para as mãos e a usar-me como uma espécie de escudo protetor. Não recorrendo a qualquer tipo de toque, posicionou-se estrategicamente atrás de mim, enquanto me apontava a origem do seu medo. Uma abelha. Sim, a impenetrável e indecifrável Glória tinha uma fraqueza, das mais simples e comuns que existem, ter medo de alguma espécie de animais. Não resisti em armar-me em forte e a fingir que não tinha receio nenhum em enfrentar aquela pequena criatura, mas já estava a sentir a picada que aí vinha e as noites de tortura e de pomada desinfetante enquanto o espigão não saísse cá para fora. Nunca fui do género cavaleiro andante, guerreiro de espada em punho ou herói de capa e escudo, mas a situação pedia-o. Pedia alguém mais destemido que a frágil Glória. Só tenho a agradecer não ter sido uma aranha a causa de todo o aparato. Através de um assobio constante e sempre no mesmo tom (ela não sabia este truque), consegui direcionar a abelha para a cozinha e imobiliza-la em cima da bancada junto a um vaso com flores artificiais perfumadas. Já devia estar a dar pela artimanha, quando desferi o golpe derradeiro com o mata-moscas. Ainda esperneou, mas já não voltou a ver a luz do dia e, muito menos, o pólen das flores, artificiais ou não.

Enquanto travava a mais dura das batalhas dos últimos tempos, não pude deixar de reparar na ordem imaculada em que o apartamento se encontrava, em tudo contrária ao que imaginava serem os pensamentos de Glória e a sua vida pessoal. Não havia loiça por lavar, nem migalhas no chão, a capa do sofá estava perfeitamente estendida sem nenhum vinco ou sinais de repouso anterior, os comandos da televisão estavam alinhados em cima de uma pequena mesa e já a apontarem para a televisão ainda desligada, a estante que se via do corredor do andar e do hall de entrada da sua casa tinha os livros organizados por autor e, nos casos possíveis, cor da lombada. Não estive em mais nenhuma divisão da casa, mas acredito que se mantenha tudo irrepreensível, sempre num esforço de contradizer aquilo que é a Glória, em que se transformou com o passar dos anos.

O golpe fatal fez com que me agradecesse e, em jeito de agradecimento, ofereceu-me um café. A necessidade e uma moeda de troca sempre. Aceitei. A minha curiosidade fervorosa, muito pouco típica de um homem, já diziam a minha mãe e namorada, fez-me querer ficar e tentar saber mais. Um café, uma colher de açúcar e o tratamento pelo nome próprio. Ela sabia o meu nome, eu fingi saber o dela. Só mais tarde recorri aos dotes da vizinha do segundo andar, cuja curiosidade é mil vezes mais aguçada que a minha, e soube que se chamava Glória.

Pedro

Publicado n’O Carrilhão, a 15 de maio de 2017