A Matilde – Parte I

A mãe da Glória era considerada por todos a pessoa mais importante da nossa zona. Não que andássemos a criar tabelas ordenadas por grau de importância para todos os que na Rua Azul (como nós lhe chamávamos, com maiúsculas e tudo) moravam, tínhamos outros passatempos, como imaginar o que faziam entreportas (de pequenino é que as cuscas torcem o pepino, é assim o ditado, não é?). Mas era comummente aceite por todos esse pedestal em que a colocávamos. Isto tudo por conta da sua profissão. Dona Matilde, a carteira.

A D.Matilde era responsável por entregar a correspondência todas as manhãs, percorrendo de fio a pavio as ruas ali à volta, sempre munida das suas sapatilhas de sola dura, já muito gastas com o passar dos anos e com o passar no alcatrão e na calçada. Quem a conhecia, sabia que tinha começado a entregar cartas ainda muito jovem, numa altura em que a sua função nos Correios não passava de uma ajuda para as próprias cartas lá de casa, as contas. Matilde trabalhava umas horas de manhã, estudava à tarde e ajudava a sua mãe em casa à noite. Hoje em dia, Matilde, D.Matilde, perdão, trabalha umas horas de manhã, trabalha umas horas de tarde e ajuda-se a si própria lá em casa todas as noites. Agora as cartas já vêm em seu nome.

Nunca foi este o seu sonho de menina, nunca imaginou que a pequena Matilde, como era tratada na sua infância por todos os que conheciam os seus pais, fosse um dia passar a distribuir dores de cabeça a ruas e ruas inteiras. Já eram raras as dores de coração que seguiam por carta, ainda mais raras as alegrias desses corações recuperados e felizes, e só cerca de uma vez por mês trazia saudade na sua mala à tiracolo. Essa mala castanho-escura que tanto azul e preto de esferográfica carregava consigo. Ou, por vezes, cores bem vivas a decorarem envelopes de pequenos filhos para os pais, de mães para pais em nome das filhas e de pais para mães em nome dos filhos. As que mais gostava eram as cores dos envelopes vermelhos com algodão colado e que tinham como destinatário o Pai Natal. Envelopes repletos de pergaminhos com boas ações, de folhas A4 perfumadas com promessas de leite e bolachas à lareira e recheados de recortes. Muitos recortes retirados de catálogos repletos de brinquedos e de sonhos.

Matilde (D. Matilde!) sempre quis cuidar das dores dos outros, não propagar ainda mais os seus sintomas. Sempre fora assim que se vira desde que começara a distribuir o correio, como uma praga. Bem que sentia os olhares daqueles que, todas as manhãs, a esperavam por detrás das cortinas, sabendo que trazia consigo mais uma dose de tristeza, daqueles que corriam quase para os seus braços, deixando portas e portas abertas para trás, para fazerem com que os lá de longe ficassem um pouco mais perto, de forma mais rápida, e daqueles que retiravam da caixa do correio um pouco mais de mágoa e que a ficavam a observar de longe, a ela, a portadora de mais uma triste novidade. Odiava estes olhares e, na maioria dos dias, não era capaz de enfrentar as pessoas cara a cara.

Embora já não com tanta frequência, pediam-lhe para ficar ali por vezes, junto à ombreira da porta principal da casa, de pés a calcarem um tapete sempre bem-educado, sempre pronto a desejar as boas-vindas a quem entrasse, enquanto descolavam a aba superior do envelope (ou a rasgavam, consoante a vontade de cada um) e davam uma primeira leitura ao conteúdo. Uns queriam um ombro amigo, outros um bode expiatório, outros um olhar cúmplice e, por vezes, algum gesto de conforto. Matilde só queria ficar sozinha e adiantar a distribuição do dia, mas deixava-se ficar com estas pessoas. Também ela sentiu a falta de uma senhora dos correios afável, que lhe tivesse permitido enxugar as lágrimas ao colete cinzento, no dia em que chegou aquele envelope azul.

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