Só mais uma volta

Quando os meus pais decidiram esbanjar o pouco dinheiro que juntaram ao longo da sua vida a um numa festa de casamento que celebrasse a futura vida a dois, nunca imaginaram um enxoval incompleto. Confiaram no passa-palavra entre convidados (numa pequena aldeia não havia como não o fazer) e não cabia na cabeça de nenhum que, ao final do dia, os talheres e outros habitantes que ocupam cada espaço livre da cozinha fossem inexistentes. Decidiram adiar a lua de mel breve a que se podiam dar ao luxo e empenharam-se numa procura intensiva por seis unidades de facas, de garfos, de colheres, da de chá até à de sopa, que nada faltasse no primeiro jantar dado a dois. Seguiu-se o resto, a categoria outros. Neles encontrava-se uma peça essencial, presente em todos os momentos. A colher de pau, a única que compraram em trinta anos. De madeira, mede pouco mais do que um palmo das minhas mãos, é mais oval do que circular e após tantos anos de uso exaustivo na cozinha, continua um dos utensílios mais úteis na preparação de todas as refeições.

É também uma metáfora das suas vidas. Demoraram a escolhê-la, percorreram umas quantas lojas, mas acabaram por voltar à primeira. Os dois levaram anos a decidir se seriam a melhor pessoa um para o outro e, depois de muito cirandar pela vida e de uma aventura lá fora do meu pai, entenderam que não havia volta a dar. Estavam condenados, a serem um e àquela colher. O contacto da madeira com diferentes temperaturas, um dia o quente, noutro o frio, com o esfregão e com a força da água de uma máquina de lavar a loiça, deixou marcas e desgaste na colher, já com pequenos pedaços da madeira lascada. Lascas também na vida, que não passam de adversidades e de obstáculos que tiveram de enfrentar dia após dia, e que serviram para os fortalecer. Por muitas dúvidas que tivessem, por muita vontade de trocar a colher, não o fizeram. Para o par certo, a colher certa. Tal como a colher a mexer a sopa, também eles voltam sempre ao mesmo sítio.

Joana Ribeiro,

no livro “1º Concurso Literário Edições Vieira da Silva”

Publicado em Outubro de 2017

Escrito em Março de 2017

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