Retrato

Passa a língua pelos lábios para lhes dar cor, não uma, mas duas vezes. Quer de volta o tom de vermelho pálido humedecido que à sombra de uma tarde cinzenta de inverno se transforma com frequência num vermelho seco gasto, que se parece com o pó de giz esboçado num quadro. Abre a boca ligeiramente e é o branco-amarelado dos seus dentes, ao acabar de beber um café, que tem todo o destaque, foi nele que a luz fraca do dia escolheu refletir-se. Dentes direitos, de pouca altura, escondidos os de trás por defeito de formação dos maxilares e um sorriso que se deixa entrever apenas oito deles.

A escuridão é residente habitual em torno dos seus olhos, embora no momento se encontre camuflada com um tom de pele pouco vivo, uma cara que sobrevive em tons de bege, um pouco amarelada, talvez não tão cinzenta quanto em anos anteriores, por força das circunstâncias de um verão passado à luz do sol. Uma sombra natural nas pálpebras que cria um olhar encovado, profundo e sem grande expressão. Olhos castanhos que não brilham. Olhos castanhos, outrora com laivos dourados, luminosos. Olham em frente, embora parados no momento.

Espirra. As bochechas ganham uma cor rosada que acompanha as duas esbatidas linhas nelas desenhadas que insistem em traçar um separador entre as esguias laterais da cara e umas maçãs do rosto reveladoras de uma meninice ainda presente, apesar da idade. Tem os dentes cerrados, não permitindo um sorriso. Faz de propósito.

Uma cicatriz no olho esquerdo cuja origem desconhece, mas sobre a qual gosta de passar o dedo indicador e de lhe imaginar uma proveniência sinistra. As sobrancelhas desalinhadas, muito curvas e rebeldes são uma metáfora da sua vida. Duas rugas de expressão na teste seguem-lhes o trajeto, que culmina num nariz estreito, sem arco, ligeiramente arrebitado na ponta e na proporção certa da cara. Se as sobrancelhas representam a vida no presente, o futuro que pretende alcançar está certamente traçado no nariz.


Glória sentou-se à minha frente e pediu-me para lhe pintar o seu retrato. Em vez disso, escrevi-o a tinta preta. Mas deixo-a aqui para a desenharem vocês.

Joana

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