Um bom dia e um café

No café a que vou todas as manhãs, é sempre o mesmo senhor a atender-me. É alto, um pouco forte (diria que é da idade, de um acumular de cerveja e de uma grande falta de mexer as pernas ao longo dos últimos anos), veste uma camisa branca de manga curta, daquelas que a maioria das mulheres abomina, mas que naquele contexto fazem todo o sentido e são parte do cenário, e transpira bastante da testa. São nove da manhã e ele transpira. Transpira para dar conta do recado. Transpira para atender todas as pessoas que por ali param, aprumadas para mais um dia de trabalho. Transpira para que o senhor, assente num fato cinzento impecavelmente engomado e de gravata de seda preenchida com pequenas bolas, se sente confortavelmente e desfrute do único momento do dia em que o telemóvel ainda não toca. Transpira para que aquele marido, que apenas enfiou um camisolão cabeça abaixo, escovou os dentes e deu um jeito trapalhão com as mãos ao cabelo, leve um grande pão de Mafra, cortado às fatias, para o pequeno-almoço da esposa, que deixou ainda enrolada aos lençóis a sorrir de olhos fechados, naquele que é o sorriso mais caloroso e ternurento dos seus dias. Transpira para que a fila de jovens estudantes, de olheiras fartas e carregadas, de unhas roídas, que batiam o pé numa sintonia quase ritmada e que acompanhava o seu aborrecimento com a espera, arregale os olhos de prazer ao ver chegar aquele café salvador, o combustível para mais um dia no meio de páginas.

Quando chega de lá de dentro uma fornada de croissants, de queques, de bolos cujo quente emana no ar e tem um cheiro de fazer despertar as narinas e de aquecer a barriga, é o primeiro a colocar umas luvas e a despejá-lo na vitrina ordeiramente, para que o apetite de todas as pessoas ao balcão fique ainda mais animado. Será sempre uma boa dose de conforto logo pela manhã para quem não resistir ao aroma e ao calor que se instalaram naquele momento. Vê as pessoas, aquelas pessoas por quem se sente responsável e cujas expectativas não quer defraudar, a lamberem os lábios e de olhos a brilhar e não hesita em sorrir. É esse o seu conforto, o pagamento por aquelas horas (já lá vão umas quantas) a trabalhar.

Limpa a transpiração da testa com a parte de cima do antebraço, num movimento que se arrasta até à parte de trás da mão, ao mesmo tempo em que entrega o troco daquela bica e daquele pão com sementes, só com fiambre de peru, sem manteiga, só com queijo, sem códea, bem misto, a nadar em manteiga, com um queijinho fresco, uma torradinha, se não se importa. Na subtileza do seu encolher de ombros pergunta muitas vezes se não têm dinheiro trocado. Amigos, amigos, negócios à parte. Cada moedinha conta ali e as notas de cinco estão a acabar. Interiormente, só pede para que acabem de vez com os pagamentos em multibanco só a partir de cinco euros, uma limitação contra a qual muito se debateu, mas que nada pôde fazer. Uns mandam, outros obedecem, não é o que dizem por aí? Com as pessoas que por ali passam diariamente, a quem já reconhece a voz, o pedido e alguns trejeitos, ainda perdoa aqueles cinco cêntimos que caíram para o fundo da mala e que teimam em lá ficar e aqueles vinte cêntimos que ficaram na mesa do escritório, mas que tem a certeza que acabarão na sua caixa ao final do dia.

Foi num desses dias, em que decidi descer as escadas do edifício onde trabalho só com umas moedas a balançarem no bolso das calças e em que ele me fez lá voltar essa tarde com vinte cêntimos e um cumprimento diferente do habitual (recebi um boa tarde, em vez do efusivo bom dia com que presenteava todas as pessoas), que a vi. Sentada numa cadeira terrivelmente irrequieta e já com quase a largura de uma recarga de folhas debaixo de uma das pernas, puxava os cabelos que lhe caíam pela cara para trás, tentando em vão prendê-los no enorme gancho com que sempre agarrara o seu forte cabelo castanho-claro. A cara pendia sobre a mesa, impossibilitando um vislumbre que fosse da sua expressão naquele momento, e as suas mãos seguravam um envelope. Azul, sem selo, destinatário e remetente escritos à mão. As mãos encontravam-se irrequietas como aquela maldita perna da cadeira, à qual já tinha encostado a sua própria perna tentando equilibrar-se da melhor forma. Seguravam e viravam o envelope a uma velocidade nervosa, levantavam a ponta colada sempre com a mesma cadência de movimentos do polegar, um claro sinal de nervosismo. Por duas vezes o pousou na mesa, mas apenas por uma vez deu um gole no café que tinha à sua frente. Pelo esgar que se seguiu, presumo que estivesse já frio, contrabalançando com o quente que deveria sentir dentro de si. Não me dirigi a ela, mas sei do que se tratava, ou melhor, de quem se tratava. Era a Glória a dar notícias.

Fui-me embora. Não me aproximei da D.Matilde, mas acenei ao senhor ao balcão. Sorriu para mim e desejou-me um resto de um bom dia. Espero que ela também consiga ter um.

Alice

Advertisements

A Matilde – Parte I

A mãe da Glória era considerada por todos a pessoa mais importante da nossa zona. Não que andássemos a criar tabelas ordenadas por grau de importância para todos os que na Rua Azul (como nós lhe chamávamos, com maiúsculas e tudo) moravam, tínhamos outros passatempos, como imaginar o que faziam entreportas (de pequenino é que as cuscas torcem o pepino, é assim o ditado, não é?). Mas era comummente aceite por todos esse pedestal em que a colocávamos. Isto tudo por conta da sua profissão. Dona Matilde, a carteira.

A D.Matilde era responsável por entregar a correspondência todas as manhãs, percorrendo de fio a pavio as ruas ali à volta, sempre munida das suas sapatilhas de sola dura, já muito gastas com o passar dos anos e com o passar no alcatrão e na calçada. Quem a conhecia, sabia que tinha começado a entregar cartas ainda muito jovem, numa altura em que a sua função nos Correios não passava de uma ajuda para as próprias cartas lá de casa, as contas. Matilde trabalhava umas horas de manhã, estudava à tarde e ajudava a sua mãe em casa à noite. Hoje em dia, Matilde, D.Matilde, perdão, trabalha umas horas de manhã, trabalha umas horas de tarde e ajuda-se a si própria lá em casa todas as noites. Agora as cartas já vêm em seu nome.

Nunca foi este o seu sonho de menina, nunca imaginou que a pequena Matilde, como era tratada na sua infância por todos os que conheciam os seus pais, fosse um dia passar a distribuir dores de cabeça a ruas e ruas inteiras. Já eram raras as dores de coração que seguiam por carta, ainda mais raras as alegrias desses corações recuperados e felizes, e só cerca de uma vez por mês trazia saudade na sua mala à tiracolo. Essa mala castanho-escura que tanto azul e preto de esferográfica carregava consigo. Ou, por vezes, cores bem vivas a decorarem envelopes de pequenos filhos para os pais, de mães para pais em nome das filhas e de pais para mães em nome dos filhos. As que mais gostava eram as cores dos envelopes vermelhos com algodão colado e que tinham como destinatário o Pai Natal. Envelopes repletos de pergaminhos com boas ações, de folhas A4 perfumadas com promessas de leite e bolachas à lareira e recheados de recortes. Muitos recortes retirados de catálogos repletos de brinquedos e de sonhos.

Matilde (D. Matilde!) sempre quis cuidar das dores dos outros, não propagar ainda mais os seus sintomas. Sempre fora assim que se vira desde que começara a distribuir o correio, como uma praga. Bem que sentia os olhares daqueles que, todas as manhãs, a esperavam por detrás das cortinas, sabendo que trazia consigo mais uma dose de tristeza, daqueles que corriam quase para os seus braços, deixando portas e portas abertas para trás, para fazerem com que os lá de longe ficassem um pouco mais perto, de forma mais rápida, e daqueles que retiravam da caixa do correio um pouco mais de mágoa e que a ficavam a observar de longe, a ela, a portadora de mais uma triste novidade. Odiava estes olhares e, na maioria dos dias, não era capaz de enfrentar as pessoas cara a cara.

Embora já não com tanta frequência, pediam-lhe para ficar ali por vezes, junto à ombreira da porta principal da casa, de pés a calcarem um tapete sempre bem-educado, sempre pronto a desejar as boas-vindas a quem entrasse, enquanto descolavam a aba superior do envelope (ou a rasgavam, consoante a vontade de cada um) e davam uma primeira leitura ao conteúdo. Uns queriam um ombro amigo, outros um bode expiatório, outros um olhar cúmplice e, por vezes, algum gesto de conforto. Matilde só queria ficar sozinha e adiantar a distribuição do dia, mas deixava-se ficar com estas pessoas. Também ela sentiu a falta de uma senhora dos correios afável, que lhe tivesse permitido enxugar as lágrimas ao colete cinzento, no dia em que chegou aquele envelope azul.

A curiosidade matou a abelha

Conheci a Glória no corredor que une os nossos dois apartamentos naquele quinto andar de curtas dimensões e sem elevador. Já tinha passado por ela duas ou três vezes, principalmente quando nos cruzávamos um a subir e outro a descer aquelas escadas eternas. Só por uma vez a encontrei à porta de casa e aí percebi que a vizinha com quem menos contacto tinha era a minha vizinha mais próxima.

Sempre foi de parcas palavras e de parcos grunhidos também. Talvez a sua interação social predileta fosse um ligeiro movimento com a cabeça, que teimou em pôr em prática nas poucas situações em que esbarrámos um no outro. Era um rápido inclinar da cabeça para cima, que passados dois segundos já estava novamente na sua posição natural. Consegui interpretá-lo como um “’tão, ‘tá tudo?”, como diriam os meus primos mais novos ou mesmo eu, quando a formalidade de um cumprimento não se impõe, ou como um “’tarde”, bem ao jeito de um velhote sentado num banco do jardim ou debaixo de um sobreiro por esse interior do país fora. Não passava disto e as minhas respostas, ao início efusivas, de elevados decibéis e acolhedoras, começaram a corresponder ao mesmo nível de entusiasmo, com um simples levantar de mão e um aceno um pouco murcho. Durante o primeiro ano em que por aqui vivi, eram assim as nossas conversas de circunstância. De grunhido em grunhido ou de aceno em aceno, confesso ainda assim que as preferia ao constante balbuciar de novidades fresquinhas da vizinha do segundo andar.

A primeira troca de palavras mais prolongada que travámos foi por pura necessidade. Aprendi mais tarde que com a Glória não há como comunicar de outro modo – trata-se tudo de dependência. É a primeira a dar um cigarro ou um litro de leite, de acordo com o contexto, mas não lhe perguntem sobre que filmes tem visto ou se leu determinado livro. O mais certo é um virar de costas, não intencional, mas fruto de uma ausência de caráter sociável da sua parte. Tinha acabado de subir o último maldito lance de escadas que leva ao afamado andar onde vivo quando me deparo com ela no corredor a barafustar e a esbracejar, de mata-moscas na mão e porta de casa aberta. A sua presença física estava diferente daquela com que me deparava por breves momentos. Para além do cabelo preso no alto da cabeça, em contraste com o seu sempre cabelo solto, liso e caído sobre os ombros de cada vez que saía de casa, os seus olhos negros não transpareciam a distância habitual, estando sim apavorados e à beira do desespero. A roupa que envergava também era bastante diferente das suas escolhas do dia-a-dia, fugindo ao seu neutro quotidiano, sem qualquer tipo de padrões, tendo vestida uma t-shirt com o nome de uma qualquer banda, que ainda hoje me escapa ao conhecimento, estampada. Lembro-me de pensar que esta versão “de trazer por casa” da Glória talvez fosse o seu verdadeiro eu.

Nesse dia ainda não sabia o seu nome, mas não hesitei em perguntar se precisava de ajuda. Não sei se teve que engolir em seco o seu orgulho, nunca quis comentar com ela a situação, mas a verdade é que não perdeu nem um segundo a dizer-me que sim, a passar-me o mata-moscas para as mãos e a usar-me como uma espécie de escudo protetor. Não recorrendo a qualquer tipo de toque, posicionou-se estrategicamente atrás de mim, enquanto me apontava a origem do seu medo. Uma abelha. Sim, a impenetrável e indecifrável Glória tinha uma fraqueza, das mais simples e comuns que existem, ter medo de alguma espécie de animais. Não resisti em armar-me em forte e a fingir que não tinha receio nenhum em enfrentar aquela pequena criatura, mas já estava a sentir a picada que aí vinha e as noites de tortura e de pomada desinfetante enquanto o espigão não saísse cá para fora. Nunca fui do género cavaleiro andante, guerreiro de espada em punho ou herói de capa e escudo, mas a situação pedia-o. Pedia alguém mais destemido que a frágil Glória. Só tenho a agradecer não ter sido uma aranha a causa de todo o aparato. Através de um assobio constante e sempre no mesmo tom (ela não sabia este truque), consegui direcionar a abelha para a cozinha e imobiliza-la em cima da bancada junto a um vaso com flores artificiais perfumadas. Já devia estar a dar pela artimanha, quando desferi o golpe derradeiro com o mata-moscas. Ainda esperneou, mas já não voltou a ver a luz do dia e, muito menos, o pólen das flores, artificiais ou não.

Enquanto travava a mais dura das batalhas dos últimos tempos, não pude deixar de reparar na ordem imaculada em que o apartamento se encontrava, em tudo contrária ao que imaginava serem os pensamentos de Glória e a sua vida pessoal. Não havia loiça por lavar, nem migalhas no chão, a capa do sofá estava perfeitamente estendida sem nenhum vinco ou sinais de repouso anterior, os comandos da televisão estavam alinhados em cima de uma pequena mesa e já a apontarem para a televisão ainda desligada, a estante que se via do corredor do andar e do hall de entrada da sua casa tinha os livros organizados por autor e, nos casos possíveis, cor da lombada. Não estive em mais nenhuma divisão da casa, mas acredito que se mantenha tudo irrepreensível, sempre num esforço de contradizer aquilo que é a Glória, em que se transformou com o passar dos anos.

O golpe fatal fez com que me agradecesse e, em jeito de agradecimento, ofereceu-me um café. A necessidade e uma moeda de troca sempre. Aceitei. A minha curiosidade fervorosa, muito pouco típica de um homem, já diziam a minha mãe e namorada, fez-me querer ficar e tentar saber mais. Um café, uma colher de açúcar e o tratamento pelo nome próprio. Ela sabia o meu nome, eu fingi saber o dela. Só mais tarde recorri aos dotes da vizinha do segundo andar, cuja curiosidade é mil vezes mais aguçada que a minha, e soube que se chamava Glória.

Pedro

Publicado n’O Carrilhão, a 15 de maio de 2017

Não há estrelas no céu

Não sei o que são, o que significam, nem o que poderão vir a revelar. Apenas sei que, nesta meia-luz em que estou envolvida, só oiço o crepitar da lareira enquanto vão aparecendo uns pontos brilhantes, que parecem estrelas, no alcance daquilo que o meu olhar tenta focar. Fecho os olhos, contemplo a escuridão (sim, essa, que ao contrário do que pensei, poucas respostas me tem trazido nestes anos de ausência), volto a abri-los, volto a fechá-los, esfrego-os com umas mãos frias e ressentidas com a distância a que estão da lareira, e num último levantar de pálpebras observo os objetos, imagens e respetivas representações que me rodeiam. Também aqui não encontro soluções. Tem sido assim todos os dias desde que decidi sair de casa, sair do conforto do meu mundo, e deixar tudo para trás das costas sem pensar duas vezes. Não que esse tudo represente uma grande bola de pessoas e coisas, mas tem em si a única amizade que alguma vez fui capaz de conquistar. A Alice.

Este planetário em que hoje se tornaram os meus olhos relembra-me as noites passadas com a minha mãe a ler-me pequenas histórias de galáxias distantes, de estrelas que iluminavam as noites de outras crianças, numa espécie de Via Láctea como a nossa, mas diferente. Não havia um dia em que não quisesse ser astronauta, simplesmente para poder observar todas as estrelas deste mundo e de outro. Para uma criança incapaz de se contentar com as paredes da sua própria casa e com os limites da sua cidade, como fui outrora, só pisar a Lua e Marte nunca seria suficiente.

Relembra-me também a ida ao planetário com os meus colegas da escola, com a Alice. Levámos cada uma a sua manta escondida dentro das mochilas da escola sarapintadas de caneta de feltro para, depois de assistirmos a uma palestra sobre o sistema solar e enquanto o resto da turma almoçava, nos deitarmos debaixo da cúpula estrelada. Uma cúpula de um azul-escuro, quase preto, que representava a noite cerrada que eu tanto gostava de ver pela janela do meu quarto, repleta de pequenos pontos brilhantes agrupados naquilo a que se dava o nome de constelações, como estávamos a aprender nas aulas daquele ano. As estrelas, as mesmas sobre as quais a minha mãe teimava em afirmar que eram a representação de todas as pessoas boas que já tinham partido da Terra. Eu, mesmo em tenra idade, sabia que tudo não passava de uma fantasia, que na realidade não era bem como a minha mãe dizia, mas deixava-a alimentar a ideia e continuar a contar-me histórias sobre cada uma das estrelas da nossa família. Especialmente as do meu pai.

Como a Alice entendia pouco de constelações e limitava-se a gostar de observar o brilho que a luz das estrelas emanava, estendemos as mantas e desenhámos com os dedos no ar as nossas próprias constelações, com os formatos mais incríveis e disparatados possíveis. A minha favorita foi o mapa da nossa cidade que a Alice desenhou, mesmo no centro da cúpula. O ponto principal era a nossa escola e quatro pontos para a direita depois, lá estava a nossa rua, na qual as duas estrelas mais brilhantes eram as nossas casas. Perdemo-nos em gargalhadas quando chegámos à infantil conclusão de que tanto brilho só podia ser proveniente da bijuteria que as nossas mães insistiam em utilizar. Os grandes brincos redondos com uma pequena flor no centro da mãe da Alice e o colar de contas em prata que a minha mãe só tirava para dormir e tomar banho.

Sair da escuridão, da noite em que teimosamente insisti em viver ao longo destes anos todos, não será tão fácil quanto esta pequena viagem à memória de outros tempos. Embora ajudem, não me vão bastar estes pequenos pontos brilhantes que por momentos invadiram o que tenho pela frente (agora e no futuro), muito menos o meu eu astronauta. Abrir as cortinas das janelas e deixar o sol entrar vai continuar a ser a maior dificuldade dos meus dias, voltar a viver num mundo com maior saturação, com cores vivas a destacarem-se em cada pormenor, vai continuar a causar-me desconforto. Talvez bastem a minha mãe e a Alice e a ideia de as voltar a encontrar. Mas ainda não sei, por enquanto a nébula dos meus olhos vai sobrepondo-se às estrelas. E este passa a ser mais um final de dia em que não fui capaz de sair destas quatro paredes, mais um final de dia em que a única interação que tive foi com um maço de cigarros cravado ao meu vizinho da frente, mais um final de dia a preto e branco.

Glória

Publicado n’O Carrilhão, a 15 de fevereiro de 2017.

Querida Glória

Querida Glória.

É Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Prepara-te que por aqui os rituais da véspera estão a ser uma loucura.

Passados dez anos, a minha mãe lá decidiu regressar a casa da minha avó para passar um Natal muito diferente dos anteriores. A minha ausência frequente nesta época do ano agravou ainda mais o afastamento entre as duas e só veio ajudar a criar as condições ideais para que se acomodasse às quatro paredes daquela que ainda é a nossa casa, encaixada nas velhas almofadas do sofá, debaixo de uma mantinha, rodeada por caixas de papel de alumínio daquele chinês take-away de torcer o nariz (sim, aquele que já existia quando éramos miúdas), e com um qualquer filme como banda sonora de fundo. Na verdade, ela só vê os primeiros cinco minutos, mas está sempre a dizer que já viu o Armageddon umas vinte vezes e que o Bruce Willis vai ser sempre um dos homens mais charmosos à face da terra (vão se lá perceber as mães); no entanto, aposto que se lhe perguntar o que é que acontece ao Ben Affleck lá pelo meio (vão se lá perceber as filhas), ela não vai fazer a mais pálida ideia.

Engendrei o reencontro todo na minha cabeça, mas foi mais simples do que estava à espera. No meio de toda a casmurrice (das duas, sempre das duas… lembras-te de comentar contigo que se fossem mãe e filha não eram tão iguais? Continuam tal e qual.), lá cederam à minha insistência e recordaram o porquê de sempre terem gostado tanto uma da outra e tudo o que já ultrapassaram juntas. Um abraço, uns quantos beijinhos e muita choradeira depois, lá selaram o acordo e combinaram que a minha mãe só tinha que levar umas azevias e conseguir com que eu fosse também (ao que parece, estiveram até ao último minuto à espera de um qualquer telefonema do meu chefe a marcar uma reunião no outro lado do mundo, quando eu lhes disse uma mão cheia de vezes que tinha tirado férias este ano). Tudo fácil, aparentemente.

Contudo, não seria um Natal próspero e feliz sem alguma confusão e berreiro à mistura. Estamos cá há um par de horas e eu não devia ter pensado que ia conseguir estar a tarde toda à lareira com as minhas primas mais novas, a contar histórias antigas e a magicar jogos para as longas horas que ainda faltam enfrentar até chegar o momento de rasgar papel. Deveria ter percebido que isso nunca iria acontecer, a partir do momento em que a minha mãe passou a ombreira da porta e viu a minha tia a carregar uma travessa cheia de filhós e fatias douradas, cujo cheiro ainda se sentia no ar. Toda aquela atmosfera a fritos deixou logo a senhora minha mãe num alvoroço interior, capaz de virar do avesso o seu sistema nervoso. Depois chegaram os meus primos mais velhos e trouxeram com eles os seus filhos bebés, cujos passatempos se dividiam entre chorar, atirar comida ao chão e gritar uns com os outros. Para quem não come fritos (sim, o crepe do chinês é a exceção, pelo menos a única de que tenho conhecimento) e não está propriamente desejosa de ser avó, começou tudo a correr como menos esperava. Está, neste momento, sentada no sofá agarrada ao dedo indicador que cortou enquanto preparava as couves para o jantar e já me expulsou da sala umas quantas vezes. Não quer que me preocupe e vai lançando uns sorrisos amarelos ao resto da família, para que pensem que está a adorar ter duas das pequenitas aos seus pés, a abanarem os barretes de Natal com guizos que têm na cabeça.

Mais cinco minutos e o desespero vai levá-la em direção à garrafa de vinho do Porto que está em cima da mesa, a encher um cálice e a bebê-lo de um trago só. Seguido de outro. Esperemos que substitua o terceiro por uma filhó polvilhada em excesso por açúcar e canela. Ou duas, ou três. Sei que a partir do momento em que ceder ao aroma impregnado no ar, as fatias douradas e as azevias também irão parar à sua frente. Para terminar, imagina só o que vai acontecer quando souber que queremos ir todos em peregrinação ver as várias fogueiras a arderem pela aldeia. Espero que por essa altura o vinho do Porto já faça efeito.

Querida Glória, é Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Desculpa-me a loucura destas palavras escritas em cima do joelho, mas tenho saudades de partilhar todos estes momentos contigo e de me rir deles ao teu lado. E não há nada como os descrever enquanto vão acontecendo, enquanto a minha mãe sucumbe à confusão e ao não menos caótico espírito natalício.

Um Feliz Natal. Onde quer que estejas.

Alice

Menina das tranças pretas

Depois das manhãs de missa (sim, vamos continuar a assumir que era mesmo missa, não um qualquer cochicho no banco da frente da Igreja sobre o assunto da semana na escola, e cuja duração coincidia exatamente com a hora e meia da celebração… a vida, realmente, está cheia de coincidências) e do gelado que nos sabia pela vida, especialmente por todos os castigos da semana, arredávamos pé de junto das saias das nossas mães e íamos para casa de uma das meninas do grupo (encantador visto de fora, devastador visto de dentro) destruir almofadas, loiça da cozinha e cabelo das bonecas, tudo o que servisse os nossos crescentes e sedentos, mas infantis, desejos de vingança. Tendíamos muito mais para o devastador, com toda a certeza. O nosso domingo resumia-se a uma manhã de calma (aparente) para uma tarde de demonstrações muito pouco pacíficas.

Ainda hoje penso que toda esta mágoa e revolta contida em nós se devia à estranheza com que éramos olhadas pelos outros alunos da escola, em especial por aqueles diferentes e curiosos, os feios e giros ao mesmo tempo, os do sexo masculino, claro está. Não consigo encontrar melhor razão para um grupo de meninas com pouco mais de dez anos quererem fazer pontaria às paredes com pratos da cozinha e com os belos bibelôs de coleção da Vista Alegre, pintados à mão em tons de azul e que tão bem combinavam com tudo o que figurava nas salas de estar da altura (se procurar bem, ainda encontro uns quantos em casa da minha mãe). Das duas uma, ou os culpados foram os futuros homens ou a luta pelos direitos das mulheres. Começámos cedo.

Isto na maioria das memórias que guardo das idas aos locais sagrados de cada uma de nós, aqueles quartos sarapintados de cores por tudo o que era objeto ou adereço. De todas as outras peregrinações, mais ponderadas, recordo apenas uma na perfeição – a tarde em que entrançámos os cabelos compridos (mãe que era mãe não autorizava nada que não fosse uma cabeleira farta e com uns quantos quilómetros) umas às outras, depois de umas quantas tentativas frustradas de permanentes caseiras (filha que era filha utilizava os rolos e a touca do cabelo da mãe).

Estávamos todas na casa da Cecília, uma menina mais nova que teimou em se sentar sempre ao nosso lado à hora de almoço, sem dar por nada do que se passava à nossa volta, concentradas naquela brincadeira tão de menina, que nem parecia nossa. Qualquer pessoa que entrasse no quarto e ficasse parada a observar aquele cenário, associaria de imediato a gravura a uma fábrica de produção em série. Cinco raparigas de pequena estatura, sentadas em fila, uma a seguir à outra, de pernas à chinês e com as mãos num movimento elegante, metódico e de elevada velocidade, como se aquele fosse o seu trabalho de todos os dias, o seu ganha-pão. Foi necessário muito treino ao longo dos nossos primeiros anos para que conseguíssemos atingir tamanha perícia. Hoje já não sei se sucederia nesta missão.

Madeixa a madeixa, lá se deixavam ver as tranças, com as suas combinações de tons muito característicos de cada uma. As que mais me impressionavam na altura eram as tranças nos cabelos loiros, uma madeixa mais escura a sobrepor-se a uma madeixa mais clara, mais queimada pelo sol, presas com os mais diversos elásticos coloridos, que acabariam sempre por desaparecer para um qualquer buraco negro doméstico. No entanto, são os cabelos negros e muito lisos da Glória que tenho cravados na memória. Raramente os penteava e andava sempre com eles soltos, capazes de acompanhar os seus movimentos mais graciosos e os seus movimentos menos cuidados, por isso a trança com que os enfeitamos foi uma vitória para todas. E melhor ainda, era a trança que mais se destacava no meio de todas, a trança cujas voltas conseguiam entrever pequenos laivos azulados.

Em jeito de brincadeira, dizíamos que a Glória se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia, por deixar esvoaçar o seu cabelo escuro e desgrenhado ao sabor dos dias. As suas roupas escuras (a saia azul foi sempre exceção), o seu comportamento mais contido, os seus movimentos silenciosos e o seu ar cabisbaixo completavam o leque dessa suposição. Ela deixava-se rir deste nosso disparate e, por vezes, brincava com o assunto, uivando para a lua enquanto conversávamos nos bancos lá da rua. Curiosamente, o cabelo da Glória entrançado recordava-nos uma noite de lua cheia, com os seus raios de luz lunar a encherem a escuridão das noites. Não estranhei, portanto, quando, após uma das noites de lua cheia no ano da nossa maioridade, ela decidiu desaparecer, não deixando nenhum raio dessa luz para trás.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 15 de dezembro de 2016

Ritos e rituais

Os ritos finais da missa sempre foram a nossa parte favorita dos domingos de manhã, que, sem exceção, desenhavam um ritual madrugador e bastante disciplinado para quem não tinha que ir à escola nesse dia. Começava com a cortina escura da noite a descobrir uma tela mais clara, de cujas cores nunca sabíamos o que esperar (detestávamos a meteorologia e os programas de televisão que proporcionava, a paleta de cores do amanhecer era uma das surpresas que gostávamos de conservar desde bem pequeninas) e passava para a cozinha, ainda de cabelos no ar e entrelaçados uns nos outros, provavelmente com a boneca de pano favorita da altura a acompanhar (sempre pendurada por um braço, sempre), onde perdíamos uma meia hora a tentar convencer as nossas mães de que não era preciso tomarmos o pequeno-almoço, a teimar que o leite estava azedo e que, por isso, não podíamos tomar o pequeno-almoço, a espernear na cadeira e a afirmar, alto e bom som, que as moscas não largavam o nosso pão e que não podíamos estar naquele ambiente contaminado a (sim, adivinharam) tomar o pequeno-almoço.

Arrastávamo-nos depois pelo corredor, como se de uma passadeira rolante se tratasse. Não arredávamos pé da porta e esperávamos que nos levassem, a nós e às bonecas. Muitas das vezes, bastava um berro das mães de cada casa para que os nossos pés ganhassem vida e a velocidade com que nos dirigíamos para o banho fosse capaz de bater recordes olímpicos. No banho, o ritual ensurdecedor das manhãs de domingo acalmava. E mais tempo nos deixassem por lá ficar, a fazer bolinhas de sabão e a espetar o cabelo ensaboado em inúmeras direções. Como devem calcular, o berreiro retomava na hora de sair de dentro da banheira – se por um lado, a figura da autoridade aparecia com a toalha numa das mãos e a apontar para o relógio com a outra, por outro, a figura do sindicato (de jovens trabalhadores) colocava as duas mãos nos ouvidos e assobiava. Escusado será dizer que a idade, já na altura (especialmente na altura), era um posto.

Já de cabelo entrançado, mas ainda de cara amuada, aparecíamos todas junto aos portões dos quintais e sorríamos muito discretamente umas para as outras. As mães nunca davam pelos nossos sorrisos matreiros que já antecipavam o melhor momento dos domingos de manhã, mas que ainda estavam muito melindrados pelos métodos de tortura aplicados…na alvorada. Os nossos rituais matinais eram muito semelhantes, ou não passássemos a maioria do dia juntas a congeminar planos contra a autoridade. A lá de casa, certamente, porque a estrada era sempre atravessada na passadeira. Íamos juntas para a missa, ficando o grupo de castradoras de sonhos para trás (hoje desconfio que congeminavam tanto como nós, elaborando estratagemas de alto risco para nos conseguirem domar). Quando chegavam à igreja, depois da bica a que nunca tínhamos direito, já nós nos encontrávamos sentadas, a ocupar as duas filas de extensos bancos em frente ao altar. Não eram os lugares que mais nos agradavam, por não serem de fácil escapatória, mas era uma pequena cedência que aceitávamos em prol de um bem maior. Sabiam que, ao menos ali, evitavam que adormecêssemos em frente às vizinhas coscuvilheiras lá da rua e, para compensarem o esforço, permitiam-nos alguma soltura no resto do dia.

Não é de estranhar então que, assim que o Padre Miguel informava a população, maioritariamente constituída pelo mulherio da aldeia, dos eventos e reuniões mais importantes da semana que estava a chegar, começássemos todas a olhar umas para as outras, a mostrar os poucos dentes de adulto que já tínhamos, cada uma com um sorriso mais rasgado do que a outra. Estava a chegar a hora do gelado, fosse verão ou fosse inverno. A única diferença eram os sabores disponíveis porque o Sr. Paulo fazia sempre questão de abrir o quiosque todos os fins de semana, para que nada faltasse às suas melhores clientes.

Chegávamos à rua e já as portadas brancas do quiosque se abriam de par em par, com o toldo vermelho e branco, luzidio e sempre impecável, a sorrir para nós, a chamar-nos ainda mais, se é que era possível. Era frequente vermos o Sr. Paulo em cima de um escadote, de balde e pano em riste, pronto a limpar cada cantinho do quiosque durante os dias de escola, embora estivéssemos proibidíssimas de comer gelados durante a semana. Só passávamos por ali para acenar, contemplar as cores do quiosque e escolher o sabor do gelado pelo qual nos iríamos enamorar todos os dias até ao momento em que o pediríamos em namoro.

Embora a variedade de sabores não fosse grande, as opções e estratégias de escolha variavam muito de menina para menina. Uma escolhia sempre um dos gelados de fruta disponíveis, outra variava de baunilha para chocolate e de chocolate para baunilha, lembro-me também que uma de nós comia sempre o mesmo, aquele gelado de cor verde ao qual eu tanto torcia o nariz e do qual só mais tarde soube o nome do sabor. Sim, era de pistácio, claro, mas na altura ninguém me conseguia convencer de que não era de espinafres ou de brócolos. Já a minha escolha era determinada por uma escala de cores. Entre o sabor de uma semana e de outra tinha que existir uma cadência, uma evolução ou uma regressão, uma continuidade aparente entre os sabores de cada domingo. Muito fiel às cores quentes, só por uma vez dei oportunidade a um gelado em tons de azul feito especialmente para mim pela mulher do Sr. Paulo. Era de mirtilo. O verde nunca teve essa sorte comigo, mas sei que a Glória o experimentou. Era a única das meninas lá da rua que escolhia sempre os mesmos sabores que eu, apesar de o fazer com uma semana de atraso, mas no dia em que partiu, provou o único sabor que sabia que eu nunca iria experimentar. Só mais tarde soube o porquê.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 1 de novembro de 2016

Oh Glória, arredonda a saia – II

Sentavamo-nos todos os dias na paragem ao fundo da rua, com as nossas mochilas, identificadas a caneta de feltro azul para infelicidade das nossas mães, às costas, sempre repletas de alegria e de entusiasmo por mais um dia de escola. Eu tinha por hábito levar comigo a última revista de banda desenhada da Turma da Mônica que o Sr. Júlio recebera na papelaria, para ler durante a hora de almoço (ou melhor, para reler porque só naquele quilómetro de relva que separava a porta do Sr. Júlio da porta da D. Manuela, a minha mãe, despachava as aventuras do Cebolinha e da Magali a toda a velocidade para poder chegar a casa e dedicar-me exclusivamente à grande protagonista e ao seu coelhinho azul, o Sansão, na chaise longue da sala); a Glória levava a sua saia azul (sempre que a mãe não a obrigava a levar umas calças de ganga ou outra qualquer saia que tivesse no armário) e o seu discman sarapintado a caneta permanente, para não ter que falar com os outros colegas da escola no recreio e na hora de almoço. Naquela altura fazíamos desenhos em todo o lado, menos nas paredes de casa.

Aquele breve período de tempo, enquanto a carrinha verde-garrafa da escola básica não chegava, era um dos poucos momentos que eu e a Glória partilhávamos só as duas, já que as nossas mães, por criarem as filhas sozinhas e fazerem questão de estar em casa à hora em que regressávamos, saiam ainda de madrugada para trabalhar. As restantes meninas da nossa rua iam todas de carro com os pais mais perto da hora do toque. Imaginá-las no banco de trás do carro, sentadas nas cadeirinhas de segurança, resultava, com frequência, numas boas gargalhadas. Sentadas no banco da paragem, pontapeávamos pedrinhas de um lado para o outro da estrada, dizíamos adeus de cada vez que o carteiro passava e conversávamos muito uma com a outra. Foi assim que me tornei confidente da pequena Glória. Foi assim que fui uma das pessoas que mais sofreu quando ela, mais tarde, decidiu partir e não levar a saia azul consigo.

Num desses dias, em pleno novembro e com uma chuva miudinha a cair sobre as nossas cabeças, o cão que vagueava pela nossa rua teimou em acompanhar-nos até à paragem e, decidido, acomodou-se aos nossos pés. Tinha um tom castanho avermelhado, umas orelhas grandes e sempre descaídas e estava quase sempre de língua de fora. Só parava quando nos sentia, a nós e às outras meninas da rua, descansadas ou no conforto das nossas casas. Dávamos-lhe comida sempre que podíamos, embora a maior parte das vezes fosse às escondidas das nossas mães, que tinham medo que o cão vadio, como lhe chamavam, nos pegasse alguma coisa, alguma doença (umas pulguitas fazem mal a alguém?). Para nós, não era vadio coisa nenhuma, era o cão da nossa rua, o nosso cão, e estávamos em processo de lhe escolher um nome. Como devem calcular, não foi uma tarefa fácil já que cada uma de nós tinha a sua opinião e argumentos fortes para a sustentar. Miúdas.

Ali estava ele, sossegado, sem pressas, quase adormecido, só levantando a cabeça por breves segundos quando parávamos de falar. Estava embalado pelas nossas palavras e, assim que as interrompíamos por algum motivo, estranhava. Gostava da nossa companhia, do nosso barulho alto e ininterrupto (volto a dizer, miúdas) no meio da rua, gostava que lhe passássemos a bola com que brincávamos para lhe dar uns toques (por mim, tinha nome de jogador da bola, estava mais do que visto que tinha aptidão), mas detestava festinhas. As nossas palavras, as nossas brincadeiras e o saber-nos seguras eram os únicos afetos que pretendia. Por isso, ali estava ele aos nossos pés, sem que nenhuma de nós se atrevesse a baixar o braço para lhe afagar o pêlo. E eu bem que queria. Já a Glória era das poucas que respeitava essa decisão. Não tentava sequer tocar-lhe. Agora percebo. Eram em tudo semelhantes. A Glória preferia sentar-se a ouvir e a observar-nos do que participar ativamente nas nossas brincadeiras. Podemos dizer que era a nossa espectadora mais assídua, a seguir ao cão.

Chegada a carrinha verde-garrafa, o nosso pequeno amigo afasta-se para nos dar passagem e senta-se nas patas de trás a olhar para nós, esperando pelo momento em que nos sentamos e colocamos o cinto de segurança (sempre protetor, sempre). Assim que o condutor arranca (confesso que não me recordo do nome do senhor, tivemos a companhia de muitos durante os quatro anos de escola primária), ele parte sem destino. Sabíamos que não era exclusivo da nossa rua, que tomava conta de muitos mais meninos por essas ruas fora, mas mesmo assim dissemos-lhe adeus, esperando voltar a vê-lo quando regressássemos.

Foi ao olhar para ele que a Glória me confiou um dos seus desejos. Também ela queria partir sem destino um dia, andar por aí a observar o mundo e o mundo dos outros. Na altura, achei que a ideia fazia todo o sentido para a nossa contadora de histórias, precisava de matéria-prima para as suas composições e de conhecer novas cores e texturas. Mal sabia eu que a ideia dela era deixar tudo para trás e aventurar-se num mundo a preto e branco.

Oh Glória, arredonda a saia – I

Andava quase todos os dias com uma saia azul que lhe ficava uma mão abaixo dos joelhos. Uma saia muito rodada, tingida do azul do anoitecer que adivinha um dia seguinte muito quente. Como eu gostava de olhar para aquela saia e pensar que combinava com o azul do céu que vai engolindo aos poucos o cor de laranja de um dia de verão. Para mim, a Glória sempre foi sinónimo de anoitecer.

Embora passasse os dias a fazer piruetas para fazer rodopiar a saia e observar o seu movimento giratório, as suas voltas e contravoltas, era raro vermos a Glória a correr no meio da rua juntamente com as outras crianças. Preferia ficar no nosso banquinho de eleição e só se levantava para apanhar alguma flor, cuja cor lhe despertara a atenção (ou os sentidos), despindo-a de pétalas, logo de seguida. Dispunha uma a uma no seu colo, em cima da saia azul. Olhar para ela naqueles momentos era como contemplar um céu cheio de nuvens em tons de vermelho, cor de laranja ou amarelo.

Sempre foi a menina mais cabisbaixa e reservada de toda a rua, vivendo num mundo paralelo ao nosso. Sim, também pintava as solas brancas dos ténis com marcadores, como nós, mas sempre com flores. Mais tarde aprendi que quem desenha flores com alguma frequência tem uma tristeza do tamanho do céu azul dentro de si. Gostava de ficar a olhar para nós durante o dia, a imaginar pequenas histórias em que nos movia consoante a sua imaginação, quase como se fôssemos peças de um jogo de tabuleiro. Tal como a saia azul, a sua imaginação não parava de andar às voltas. Um pouco antes das nossas mães nos chamarem para jantar, cada uma à sua porta, partilhava connosco as aventuras que aquele dia nos tinha reservado.

O nosso grupo de cinco meninas sentava-se no banco junto dela (umas tinham sorte e ocupavam os lugares sentados, outras encavalitavam-se nas costas de madeira desgastada do mesmo) e ouvia muito atentamente o que a pequena contadora de histórias de saia azul tinha para nos dizer. Tão depressa nos transportava para mundos circulares em tons de amarelo, nos quais uma de nós corria loucamente em cima de uma bola de plástico de grandes dimensões da qual não podia cair sob o risco de vermos a nossa rua atingida por um meteoro, como nos elevava ao estatuto de cavaleiras das nuvens, que se moldavam em formato de cavalo assim que avistavam as nossas capas cor de rosa e as nossas espadas feitas com ramos de árvores, cheios de folhas verde vivo.

Tanto eu como as outras meninas adorávamos a Glória do anoitecer. Com ela tudo era colorido, exceto ela própria. Ainda hoje desconfio que via a saia em tons de azul escuro, um azul de noite cerrada.

 

Alice

 

“A viagem do elefante”

Enquanto a minha mãe abria a porta de casa depois de uma noite de conversa e de dança regada a vinho tinto, encontrei-me a observar todos os cantos da rua da minha infância onde esfolei os joelhos, todos os bancos onde me sentei a ler, a espreitar para a casa dos vizinhos, a conspirar com as minhas, também, pequenas amigas, e todas as árvores por onde tentei trepar tantas e tantas vezes mas junto das quais acabava sempre de rabo no chão e de lágrima no olho. A falta de agilidade, aliada a uma barriguinha de bebé sempre muito saliente, nunca torceram por mim, nem me ajudaram nos primeiros doze anos da minha vida. Com estas duas amigas (da onça) nunca me sentaria a congeminar ideias e partidas.

Limpei os pés ao tapete da entrada, onde um cão que vagueava pela nossa rua tantas vezes teimava em se deitar, e entrei dentro de casa. Já cá não vinha há cinco anos, fruto da minha situação profissional e dos constantes Natais passados em viagem, mas estava tudo intacto e no mesmo sítio, como se o tempo tivesse tirado férias. A minha mãe mantivera todas as quinquilharias de uma vida plural nos mesmos lugares, os livros continuavam nas estantes pela mesma ordem em que eu os tivera arrumado anos antes, a jarra das flores mantinha-se na cómoda do hall de entrada, só mudando o seu conteúdo, fragrância e cor, e o cheiro a pão continuava a pairar pelo ar. Todos os dias desde que me conheço que a minha mãe amassa farinha e coze um pão no forno ainda antes do amanhecer, o que poderá ser o verdadeiro motivo por detrás do “mini-elefante” que outrora fui. Já foi ligar o forno, como devem calcular. Já vai com umas horas de atraso.

Subi as escadas em direção ao meu antigo quarto. Lá estavam os autocolantes na porta a tentarem demover quem quisesse colocar um pé que fosse no meu território. Tinham cores quentes e fortes, mensagens agressivas ao estilo de “cuidado com o cão” com um tipo de letra muito reto, assimétrico e triangular, e continham uma bonecada assustadora…para quem tem medo de cães. Ou de gatos, porque tenho a sensação que só mesmo eu é que tinha receio de entrar no meu próprio quarto. Abri a porta e lá estavam os livros que ainda não metera em caixas para levar para o meu apartamento, o edredão azul às bolinhas brancas e as almofadas que nunca combinavam, para desgosto da minha mãe, os recortes colados à parede e os muitos desenhos que fizera, acumulados numa pasta em cima da secretária, sempre a quererem sair para fora.

Ali está também a mancha na parede, em tons de azul, que tanta conversa gerou nos jantares de família. A mancha são os restos mortais de um desenho feito por mim a lápis de cera, quando tinha quinze anos, e que foi esfregada (e bem esfregada!) pela minha rainha de copas, depois de me ter proibido de sair de casa nas semanas seguintes. Era um auto-retrato de uma jovem na puberdade, cujo sonho era percorrer o mundo de lápis na mão. Ou atrás da orelha, como os construtores civis têm por hábito fazer. O fundo do retrato tinha um mapa-múndi com as zonas de maior prioridade identificadas a um tom de azul mais carregado, que não tardei a replicar para um caderno pautado, entretanto já perdido.

O retrato desta Alice de quinze anos era francamente pessimista. Borbulhas carregadas, esborratadas com o dedo para passar melhor o efeito propagador que tinham na minha cara, um traço marcado nas pálpebras a delinear o eyeliner que usava contra a recomendação da minha avó de que de carinha lavada é que eu estava bem, uns lábios gordos e muito preenchidos dos quais nunca gostei, e que raramente desenhavam um sorriso. Cabisbaixa como sempre, de carapuço enfiado na cabeça e com um olhar distante. Um olhar dirigido a outro canto do mundo.

Sempre quis partir por estar constantemente de fora. Não se tratava de não conseguir criar laços com as pessoas, eu queria era criar laços com o mundo. Verificar se as imagens que construíra na minha cabeça desde pequena existiam verdadeiramente. Ver se o azul dos fiordes e o verde das montanhas em volta correspondiam à tonalidade da minha imaginação. Observar se o branco da neve era tão celestial como diziam, tão puro que nunca consegui encontrar um lápis cuja cor o reproduzisse na perfeição. Será que os tons de vermelho e de laranja expelidos por um vulcão em erupção eram os mesmos com que eu os continuava a pintar? Alimentava este desejo com os recortes que, muito discretamente e como se de um jogo de estratégia se tratasse, ia surripiando às revistas de coleção da minha tia. Eram centenas e centenas de revistas recheadas de recantos e maravilhas por descobrir nas mais diversas cidades e vilas do mundo, amontoadas numa divisão da casa que fazia as vezes de biblioteca. Contudo, a sede que tinha não me deixava contentar apenas com estas imagens repletas de cor…e de adrenalina.

Hoje, e enquanto recordo os meus sonhos de infância sentada ao fundo da cama, pediria ao meu eu de quinze anos para não levar a vida de forma tão cinzenta. Para tentar equilibrar o mundo colorido que idealizava com o mundo escuro em que dizia viver. Para agarrar num godé e misturar várias cores ou vários tons da mesma cor. Para ir saindo do cinzento escuro aos poucos, como se de um dégradé de cores se tratasse. Dir-lhe-ia também para, antes de ambicionar um mundo pintado a guaches de todas as cores, tirar o lápis de cor de trás da orelha e começar por colorir o mundo real dentro das linhas, fugindo aos contornos uma vez por outra. Talvez assim o auto-retrato na parede ainda por lá estivesse e, agora aos trinta, não me limitasse apenas a olhar para um borrão.

Querida Alice com quinze anos, vais conseguir correr o mundo de lés a lés nos próximos anos, por isso, levanta-te, põe um sorriso no rosto, carrega no eyeliner o quanto quiseres e vai à cozinha. Já cheira a pão acabado de cozer.