Oh Glória, arredonda a saia – II

Sentavamo-nos todos os dias na paragem ao fundo da rua, com as nossas mochilas, identificadas a caneta de feltro azul para infelicidade das nossas mães, às costas, sempre repletas de alegria e de entusiasmo por mais um dia de escola. Eu tinha por hábito levar comigo a última revista de banda desenhada da Turma da Mônica que o Sr. Júlio recebera na papelaria, para ler durante a hora de almoço (ou melhor, para reler porque só naquele quilómetro de relva que separava a porta do Sr. Júlio da porta da D. Manuela, a minha mãe, despachava as aventuras do Cebolinha e da Magali a toda a velocidade para poder chegar a casa e dedicar-me exclusivamente à grande protagonista e ao seu coelhinho azul, o Sansão, na chaise longue da sala); a Glória levava a sua saia azul (sempre que a mãe não a obrigava a levar umas calças de ganga ou outra qualquer saia que tivesse no armário) e o seu discman sarapintado a caneta permanente, para não ter que falar com os outros colegas da escola no recreio e na hora de almoço. Naquela altura fazíamos desenhos em todo o lado, menos nas paredes de casa.

Aquele breve período de tempo, enquanto a carrinha verde-garrafa da escola básica não chegava, era um dos poucos momentos que eu e a Glória partilhávamos só as duas, já que as nossas mães, por criarem as filhas sozinhas e fazerem questão de estar em casa à hora em que regressávamos, saiam ainda de madrugada para trabalhar. As restantes meninas da nossa rua iam todas de carro com os pais mais perto da hora do toque. Imaginá-las no banco de trás do carro, sentadas nas cadeirinhas de segurança, resultava, com frequência, numas boas gargalhadas. Sentadas no banco da paragem, pontapeávamos pedrinhas de um lado para o outro da estrada, dizíamos adeus de cada vez que o carteiro passava e conversávamos muito uma com a outra. Foi assim que me tornei confidente da pequena Glória. Foi assim que fui uma das pessoas que mais sofreu quando ela, mais tarde, decidiu partir e não levar a saia azul consigo.

Num desses dias, em pleno novembro e com uma chuva miudinha a cair sobre as nossas cabeças, o cão que vagueava pela nossa rua teimou em acompanhar-nos até à paragem e, decidido, acomodou-se aos nossos pés. Tinha um tom castanho avermelhado, umas orelhas grandes e sempre descaídas e estava quase sempre de língua de fora. Só parava quando nos sentia, a nós e às outras meninas da rua, descansadas ou no conforto das nossas casas. Dávamos-lhe comida sempre que podíamos, embora a maior parte das vezes fosse às escondidas das nossas mães, que tinham medo que o cão vadio, como lhe chamavam, nos pegasse alguma coisa, alguma doença (umas pulguitas fazem mal a alguém?). Para nós, não era vadio coisa nenhuma, era o cão da nossa rua, o nosso cão, e estávamos em processo de lhe escolher um nome. Como devem calcular, não foi uma tarefa fácil já que cada uma de nós tinha a sua opinião e argumentos fortes para a sustentar. Miúdas.

Ali estava ele, sossegado, sem pressas, quase adormecido, só levantando a cabeça por breves segundos quando parávamos de falar. Estava embalado pelas nossas palavras e, assim que as interrompíamos por algum motivo, estranhava. Gostava da nossa companhia, do nosso barulho alto e ininterrupto (volto a dizer, miúdas) no meio da rua, gostava que lhe passássemos a bola com que brincávamos para lhe dar uns toques (por mim, tinha nome de jogador da bola, estava mais do que visto que tinha aptidão), mas detestava festinhas. As nossas palavras, as nossas brincadeiras e o saber-nos seguras eram os únicos afetos que pretendia. Por isso, ali estava ele aos nossos pés, sem que nenhuma de nós se atrevesse a baixar o braço para lhe afagar o pêlo. E eu bem que queria. Já a Glória era das poucas que respeitava essa decisão. Não tentava sequer tocar-lhe. Agora percebo. Eram em tudo semelhantes. A Glória preferia sentar-se a ouvir e a observar-nos do que participar ativamente nas nossas brincadeiras. Podemos dizer que era a nossa espectadora mais assídua, a seguir ao cão.

Chegada a carrinha verde-garrafa, o nosso pequeno amigo afasta-se para nos dar passagem e senta-se nas patas de trás a olhar para nós, esperando pelo momento em que nos sentamos e colocamos o cinto de segurança (sempre protetor, sempre). Assim que o condutor arranca (confesso que não me recordo do nome do senhor, tivemos a companhia de muitos durante os quatro anos de escola primária), ele parte sem destino. Sabíamos que não era exclusivo da nossa rua, que tomava conta de muitos mais meninos por essas ruas fora, mas mesmo assim dissemos-lhe adeus, esperando voltar a vê-lo quando regressássemos.

Foi ao olhar para ele que a Glória me confiou um dos seus desejos. Também ela queria partir sem destino um dia, andar por aí a observar o mundo e o mundo dos outros. Na altura, achei que a ideia fazia todo o sentido para a nossa contadora de histórias, precisava de matéria-prima para as suas composições e de conhecer novas cores e texturas. Mal sabia eu que a ideia dela era deixar tudo para trás e aventurar-se num mundo a preto e branco.

Oh Glória, arredonda a saia – I

Andava quase todos os dias com uma saia azul que lhe ficava uma mão abaixo dos joelhos. Uma saia muito rodada, tingida do azul do anoitecer que adivinha um dia seguinte muito quente. Como eu gostava de olhar para aquela saia e pensar que combinava com o azul do céu que vai engolindo aos poucos o cor de laranja de um dia de verão. Para mim, a Glória sempre foi sinónimo de anoitecer.

Embora passasse os dias a fazer piruetas para fazer rodopiar a saia e observar o seu movimento giratório, as suas voltas e contravoltas, era raro vermos a Glória a correr no meio da rua juntamente com as outras crianças. Preferia ficar no nosso banquinho de eleição e só se levantava para apanhar alguma flor, cuja cor lhe despertara a atenção (ou os sentidos), despindo-a de pétalas, logo de seguida. Dispunha uma a uma no seu colo, em cima da saia azul. Olhar para ela naqueles momentos era como contemplar um céu cheio de nuvens em tons de vermelho, cor de laranja ou amarelo.

Sempre foi a menina mais cabisbaixa e reservada de toda a rua, vivendo num mundo paralelo ao nosso. Sim, também pintava as solas brancas dos ténis com marcadores, como nós, mas sempre com flores. Mais tarde aprendi que quem desenha flores com alguma frequência tem uma tristeza do tamanho do céu azul dentro de si. Gostava de ficar a olhar para nós durante o dia, a imaginar pequenas histórias em que nos movia consoante a sua imaginação, quase como se fôssemos peças de um jogo de tabuleiro. Tal como a saia azul, a sua imaginação não parava de andar às voltas. Um pouco antes das nossas mães nos chamarem para jantar, cada uma à sua porta, partilhava connosco as aventuras que aquele dia nos tinha reservado.

O nosso grupo de cinco meninas sentava-se no banco junto dela (umas tinham sorte e ocupavam os lugares sentados, outras encavalitavam-se nas costas de madeira desgastada do mesmo) e ouvia muito atentamente o que a pequena contadora de histórias de saia azul tinha para nos dizer. Tão depressa nos transportava para mundos circulares em tons de amarelo, nos quais uma de nós corria loucamente em cima de uma bola de plástico de grandes dimensões da qual não podia cair sob o risco de vermos a nossa rua atingida por um meteoro, como nos elevava ao estatuto de cavaleiras das nuvens, que se moldavam em formato de cavalo assim que avistavam as nossas capas cor de rosa e as nossas espadas feitas com ramos de árvores, cheios de folhas verde vivo.

Tanto eu como as outras meninas adorávamos a Glória do anoitecer. Com ela tudo era colorido, exceto ela própria. Ainda hoje desconfio que via a saia em tons de azul escuro, um azul de noite cerrada.

 

Alice