Não há estrelas no céu

Não sei o que são, o que significam, nem o que poderão vir a revelar. Apenas sei que, nesta meia-luz em que estou envolvida, só oiço o crepitar da lareira enquanto vão aparecendo uns pontos brilhantes, que parecem estrelas, no alcance daquilo que o meu olhar tenta focar. Fecho os olhos, contemplo a escuridão (sim, essa, que ao contrário do que pensei, poucas respostas me tem trazido nestes anos de ausência), volto a abri-los, volto a fechá-los, esfrego-os com umas mãos frias e ressentidas com a distância a que estão da lareira, e num último levantar de pálpebras observo os objetos, imagens e respetivas representações que me rodeiam. Também aqui não encontro soluções. Tem sido assim todos os dias desde que decidi sair de casa, sair do conforto do meu mundo, e deixar tudo para trás das costas sem pensar duas vezes. Não que esse tudo represente uma grande bola de pessoas e coisas, mas tem em si a única amizade que alguma vez fui capaz de conquistar. A Alice.

Este planetário em que hoje se tornaram os meus olhos relembra-me as noites passadas com a minha mãe a ler-me pequenas histórias de galáxias distantes, de estrelas que iluminavam as noites de outras crianças, numa espécie de Via Láctea como a nossa, mas diferente. Não havia um dia em que não quisesse ser astronauta, simplesmente para poder observar todas as estrelas deste mundo e de outro. Para uma criança incapaz de se contentar com as paredes da sua própria casa e com os limites da sua cidade, como fui outrora, só pisar a Lua e Marte nunca seria suficiente.

Relembra-me também a ida ao planetário com os meus colegas da escola, com a Alice. Levámos cada uma a sua manta escondida dentro das mochilas da escola sarapintadas de caneta de feltro para, depois de assistirmos a uma palestra sobre o sistema solar e enquanto o resto da turma almoçava, nos deitarmos debaixo da cúpula estrelada. Uma cúpula de um azul-escuro, quase preto, que representava a noite cerrada que eu tanto gostava de ver pela janela do meu quarto, repleta de pequenos pontos brilhantes agrupados naquilo a que se dava o nome de constelações, como estávamos a aprender nas aulas daquele ano. As estrelas, as mesmas sobre as quais a minha mãe teimava em afirmar que eram a representação de todas as pessoas boas que já tinham partido da Terra. Eu, mesmo em tenra idade, sabia que tudo não passava de uma fantasia, que na realidade não era bem como a minha mãe dizia, mas deixava-a alimentar a ideia e continuar a contar-me histórias sobre cada uma das estrelas da nossa família. Especialmente as do meu pai.

Como a Alice entendia pouco de constelações e limitava-se a gostar de observar o brilho que a luz das estrelas emanava, estendemos as mantas e desenhámos com os dedos no ar as nossas próprias constelações, com os formatos mais incríveis e disparatados possíveis. A minha favorita foi o mapa da nossa cidade que a Alice desenhou, mesmo no centro da cúpula. O ponto principal era a nossa escola e quatro pontos para a direita depois, lá estava a nossa rua, na qual as duas estrelas mais brilhantes eram as nossas casas. Perdemo-nos em gargalhadas quando chegámos à infantil conclusão de que tanto brilho só podia ser proveniente da bijuteria que as nossas mães insistiam em utilizar. Os grandes brincos redondos com uma pequena flor no centro da mãe da Alice e o colar de contas em prata que a minha mãe só tirava para dormir e tomar banho.

Sair da escuridão, da noite em que teimosamente insisti em viver ao longo destes anos todos, não será tão fácil quanto esta pequena viagem à memória de outros tempos. Embora ajudem, não me vão bastar estes pequenos pontos brilhantes que por momentos invadiram o que tenho pela frente (agora e no futuro), muito menos o meu eu astronauta. Abrir as cortinas das janelas e deixar o sol entrar vai continuar a ser a maior dificuldade dos meus dias, voltar a viver num mundo com maior saturação, com cores vivas a destacarem-se em cada pormenor, vai continuar a causar-me desconforto. Talvez bastem a minha mãe e a Alice e a ideia de as voltar a encontrar. Mas ainda não sei, por enquanto a nébula dos meus olhos vai sobrepondo-se às estrelas. E este passa a ser mais um final de dia em que não fui capaz de sair destas quatro paredes, mais um final de dia em que a única interação que tive foi com um maço de cigarros cravado ao meu vizinho da frente, mais um final de dia a preto e branco.

Glória

Publicado n’O Carrilhão, a 15 de fevereiro de 2017.

Querida Glória

Querida Glória.

É Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Prepara-te que por aqui os rituais da véspera estão a ser uma loucura.

Passados dez anos, a minha mãe lá decidiu regressar a casa da minha avó para passar um Natal muito diferente dos anteriores. A minha ausência frequente nesta época do ano agravou ainda mais o afastamento entre as duas e só veio ajudar a criar as condições ideais para que se acomodasse às quatro paredes daquela que ainda é a nossa casa, encaixada nas velhas almofadas do sofá, debaixo de uma mantinha, rodeada por caixas de papel de alumínio daquele chinês take-away de torcer o nariz (sim, aquele que já existia quando éramos miúdas), e com um qualquer filme como banda sonora de fundo. Na verdade, ela só vê os primeiros cinco minutos, mas está sempre a dizer que já viu o Armageddon umas vinte vezes e que o Bruce Willis vai ser sempre um dos homens mais charmosos à face da terra (vão se lá perceber as mães); no entanto, aposto que se lhe perguntar o que é que acontece ao Ben Affleck lá pelo meio (vão se lá perceber as filhas), ela não vai fazer a mais pálida ideia.

Engendrei o reencontro todo na minha cabeça, mas foi mais simples do que estava à espera. No meio de toda a casmurrice (das duas, sempre das duas… lembras-te de comentar contigo que se fossem mãe e filha não eram tão iguais? Continuam tal e qual.), lá cederam à minha insistência e recordaram o porquê de sempre terem gostado tanto uma da outra e tudo o que já ultrapassaram juntas. Um abraço, uns quantos beijinhos e muita choradeira depois, lá selaram o acordo e combinaram que a minha mãe só tinha que levar umas azevias e conseguir com que eu fosse também (ao que parece, estiveram até ao último minuto à espera de um qualquer telefonema do meu chefe a marcar uma reunião no outro lado do mundo, quando eu lhes disse uma mão cheia de vezes que tinha tirado férias este ano). Tudo fácil, aparentemente.

Contudo, não seria um Natal próspero e feliz sem alguma confusão e berreiro à mistura. Estamos cá há um par de horas e eu não devia ter pensado que ia conseguir estar a tarde toda à lareira com as minhas primas mais novas, a contar histórias antigas e a magicar jogos para as longas horas que ainda faltam enfrentar até chegar o momento de rasgar papel. Deveria ter percebido que isso nunca iria acontecer, a partir do momento em que a minha mãe passou a ombreira da porta e viu a minha tia a carregar uma travessa cheia de filhós e fatias douradas, cujo cheiro ainda se sentia no ar. Toda aquela atmosfera a fritos deixou logo a senhora minha mãe num alvoroço interior, capaz de virar do avesso o seu sistema nervoso. Depois chegaram os meus primos mais velhos e trouxeram com eles os seus filhos bebés, cujos passatempos se dividiam entre chorar, atirar comida ao chão e gritar uns com os outros. Para quem não come fritos (sim, o crepe do chinês é a exceção, pelo menos a única de que tenho conhecimento) e não está propriamente desejosa de ser avó, começou tudo a correr como menos esperava. Está, neste momento, sentada no sofá agarrada ao dedo indicador que cortou enquanto preparava as couves para o jantar e já me expulsou da sala umas quantas vezes. Não quer que me preocupe e vai lançando uns sorrisos amarelos ao resto da família, para que pensem que está a adorar ter duas das pequenitas aos seus pés, a abanarem os barretes de Natal com guizos que têm na cabeça.

Mais cinco minutos e o desespero vai levá-la em direção à garrafa de vinho do Porto que está em cima da mesa, a encher um cálice e a bebê-lo de um trago só. Seguido de outro. Esperemos que substitua o terceiro por uma filhó polvilhada em excesso por açúcar e canela. Ou duas, ou três. Sei que a partir do momento em que ceder ao aroma impregnado no ar, as fatias douradas e as azevias também irão parar à sua frente. Para terminar, imagina só o que vai acontecer quando souber que queremos ir todos em peregrinação ver as várias fogueiras a arderem pela aldeia. Espero que por essa altura o vinho do Porto já faça efeito.

Querida Glória, é Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Desculpa-me a loucura destas palavras escritas em cima do joelho, mas tenho saudades de partilhar todos estes momentos contigo e de me rir deles ao teu lado. E não há nada como os descrever enquanto vão acontecendo, enquanto a minha mãe sucumbe à confusão e ao não menos caótico espírito natalício.

Um Feliz Natal. Onde quer que estejas.

Alice

Menina das tranças pretas

Depois das manhãs de missa (sim, vamos continuar a assumir que era mesmo missa, não um qualquer cochicho no banco da frente da Igreja sobre o assunto da semana na escola, e cuja duração coincidia exatamente com a hora e meia da celebração… a vida, realmente, está cheia de coincidências) e do gelado que nos sabia pela vida, especialmente por todos os castigos da semana, arredávamos pé de junto das saias das nossas mães e íamos para casa de uma das meninas do grupo (encantador visto de fora, devastador visto de dentro) destruir almofadas, loiça da cozinha e cabelo das bonecas, tudo o que servisse os nossos crescentes e sedentos, mas infantis, desejos de vingança. Tendíamos muito mais para o devastador, com toda a certeza. O nosso domingo resumia-se a uma manhã de calma (aparente) para uma tarde de demonstrações muito pouco pacíficas.

Ainda hoje penso que toda esta mágoa e revolta contida em nós se devia à estranheza com que éramos olhadas pelos outros alunos da escola, em especial por aqueles diferentes e curiosos, os feios e giros ao mesmo tempo, os do sexo masculino, claro está. Não consigo encontrar melhor razão para um grupo de meninas com pouco mais de dez anos quererem fazer pontaria às paredes com pratos da cozinha e com os belos bibelôs de coleção da Vista Alegre, pintados à mão em tons de azul e que tão bem combinavam com tudo o que figurava nas salas de estar da altura (se procurar bem, ainda encontro uns quantos em casa da minha mãe). Das duas uma, ou os culpados foram os futuros homens ou a luta pelos direitos das mulheres. Começámos cedo.

Isto na maioria das memórias que guardo das idas aos locais sagrados de cada uma de nós, aqueles quartos sarapintados de cores por tudo o que era objeto ou adereço. De todas as outras peregrinações, mais ponderadas, recordo apenas uma na perfeição – a tarde em que entrançámos os cabelos compridos (mãe que era mãe não autorizava nada que não fosse uma cabeleira farta e com uns quantos quilómetros) umas às outras, depois de umas quantas tentativas frustradas de permanentes caseiras (filha que era filha utilizava os rolos e a touca do cabelo da mãe).

Estávamos todas na casa da Cecília, uma menina mais nova que teimou em se sentar sempre ao nosso lado à hora de almoço, sem dar por nada do que se passava à nossa volta, concentradas naquela brincadeira tão de menina, que nem parecia nossa. Qualquer pessoa que entrasse no quarto e ficasse parada a observar aquele cenário, associaria de imediato a gravura a uma fábrica de produção em série. Cinco raparigas de pequena estatura, sentadas em fila, uma a seguir à outra, de pernas à chinês e com as mãos num movimento elegante, metódico e de elevada velocidade, como se aquele fosse o seu trabalho de todos os dias, o seu ganha-pão. Foi necessário muito treino ao longo dos nossos primeiros anos para que conseguíssemos atingir tamanha perícia. Hoje já não sei se sucederia nesta missão.

Madeixa a madeixa, lá se deixavam ver as tranças, com as suas combinações de tons muito característicos de cada uma. As que mais me impressionavam na altura eram as tranças nos cabelos loiros, uma madeixa mais escura a sobrepor-se a uma madeixa mais clara, mais queimada pelo sol, presas com os mais diversos elásticos coloridos, que acabariam sempre por desaparecer para um qualquer buraco negro doméstico. No entanto, são os cabelos negros e muito lisos da Glória que tenho cravados na memória. Raramente os penteava e andava sempre com eles soltos, capazes de acompanhar os seus movimentos mais graciosos e os seus movimentos menos cuidados, por isso a trança com que os enfeitamos foi uma vitória para todas. E melhor ainda, era a trança que mais se destacava no meio de todas, a trança cujas voltas conseguiam entrever pequenos laivos azulados.

Em jeito de brincadeira, dizíamos que a Glória se transformava em lobisomem nas noites de lua cheia, por deixar esvoaçar o seu cabelo escuro e desgrenhado ao sabor dos dias. As suas roupas escuras (a saia azul foi sempre exceção), o seu comportamento mais contido, os seus movimentos silenciosos e o seu ar cabisbaixo completavam o leque dessa suposição. Ela deixava-se rir deste nosso disparate e, por vezes, brincava com o assunto, uivando para a lua enquanto conversávamos nos bancos lá da rua. Curiosamente, o cabelo da Glória entrançado recordava-nos uma noite de lua cheia, com os seus raios de luz lunar a encherem a escuridão das noites. Não estranhei, portanto, quando, após uma das noites de lua cheia no ano da nossa maioridade, ela decidiu desaparecer, não deixando nenhum raio dessa luz para trás.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 15 de dezembro de 2016

Ritos e rituais

Os ritos finais da missa sempre foram a nossa parte favorita dos domingos de manhã, que, sem exceção, desenhavam um ritual madrugador e bastante disciplinado para quem não tinha que ir à escola nesse dia. Começava com a cortina escura da noite a descobrir uma tela mais clara, de cujas cores nunca sabíamos o que esperar (detestávamos a meteorologia e os programas de televisão que proporcionava, a paleta de cores do amanhecer era uma das surpresas que gostávamos de conservar desde bem pequeninas) e passava para a cozinha, ainda de cabelos no ar e entrelaçados uns nos outros, provavelmente com a boneca de pano favorita da altura a acompanhar (sempre pendurada por um braço, sempre), onde perdíamos uma meia hora a tentar convencer as nossas mães de que não era preciso tomarmos o pequeno-almoço, a teimar que o leite estava azedo e que, por isso, não podíamos tomar o pequeno-almoço, a espernear na cadeira e a afirmar, alto e bom som, que as moscas não largavam o nosso pão e que não podíamos estar naquele ambiente contaminado a (sim, adivinharam) tomar o pequeno-almoço.

Arrastávamo-nos depois pelo corredor, como se de uma passadeira rolante se tratasse. Não arredávamos pé da porta e esperávamos que nos levassem, a nós e às bonecas. Muitas das vezes, bastava um berro das mães de cada casa para que os nossos pés ganhassem vida e a velocidade com que nos dirigíamos para o banho fosse capaz de bater recordes olímpicos. No banho, o ritual ensurdecedor das manhãs de domingo acalmava. E mais tempo nos deixassem por lá ficar, a fazer bolinhas de sabão e a espetar o cabelo ensaboado em inúmeras direções. Como devem calcular, o berreiro retomava na hora de sair de dentro da banheira – se por um lado, a figura da autoridade aparecia com a toalha numa das mãos e a apontar para o relógio com a outra, por outro, a figura do sindicato (de jovens trabalhadores) colocava as duas mãos nos ouvidos e assobiava. Escusado será dizer que a idade, já na altura (especialmente na altura), era um posto.

Já de cabelo entrançado, mas ainda de cara amuada, aparecíamos todas junto aos portões dos quintais e sorríamos muito discretamente umas para as outras. As mães nunca davam pelos nossos sorrisos matreiros que já antecipavam o melhor momento dos domingos de manhã, mas que ainda estavam muito melindrados pelos métodos de tortura aplicados…na alvorada. Os nossos rituais matinais eram muito semelhantes, ou não passássemos a maioria do dia juntas a congeminar planos contra a autoridade. A lá de casa, certamente, porque a estrada era sempre atravessada na passadeira. Íamos juntas para a missa, ficando o grupo de castradoras de sonhos para trás (hoje desconfio que congeminavam tanto como nós, elaborando estratagemas de alto risco para nos conseguirem domar). Quando chegavam à igreja, depois da bica a que nunca tínhamos direito, já nós nos encontrávamos sentadas, a ocupar as duas filas de extensos bancos em frente ao altar. Não eram os lugares que mais nos agradavam, por não serem de fácil escapatória, mas era uma pequena cedência que aceitávamos em prol de um bem maior. Sabiam que, ao menos ali, evitavam que adormecêssemos em frente às vizinhas coscuvilheiras lá da rua e, para compensarem o esforço, permitiam-nos alguma soltura no resto do dia.

Não é de estranhar então que, assim que o Padre Miguel informava a população, maioritariamente constituída pelo mulherio da aldeia, dos eventos e reuniões mais importantes da semana que estava a chegar, começássemos todas a olhar umas para as outras, a mostrar os poucos dentes de adulto que já tínhamos, cada uma com um sorriso mais rasgado do que a outra. Estava a chegar a hora do gelado, fosse verão ou fosse inverno. A única diferença eram os sabores disponíveis porque o Sr. Paulo fazia sempre questão de abrir o quiosque todos os fins de semana, para que nada faltasse às suas melhores clientes.

Chegávamos à rua e já as portadas brancas do quiosque se abriam de par em par, com o toldo vermelho e branco, luzidio e sempre impecável, a sorrir para nós, a chamar-nos ainda mais, se é que era possível. Era frequente vermos o Sr. Paulo em cima de um escadote, de balde e pano em riste, pronto a limpar cada cantinho do quiosque durante os dias de escola, embora estivéssemos proibidíssimas de comer gelados durante a semana. Só passávamos por ali para acenar, contemplar as cores do quiosque e escolher o sabor do gelado pelo qual nos iríamos enamorar todos os dias até ao momento em que o pediríamos em namoro.

Embora a variedade de sabores não fosse grande, as opções e estratégias de escolha variavam muito de menina para menina. Uma escolhia sempre um dos gelados de fruta disponíveis, outra variava de baunilha para chocolate e de chocolate para baunilha, lembro-me também que uma de nós comia sempre o mesmo, aquele gelado de cor verde ao qual eu tanto torcia o nariz e do qual só mais tarde soube o nome do sabor. Sim, era de pistácio, claro, mas na altura ninguém me conseguia convencer de que não era de espinafres ou de brócolos. Já a minha escolha era determinada por uma escala de cores. Entre o sabor de uma semana e de outra tinha que existir uma cadência, uma evolução ou uma regressão, uma continuidade aparente entre os sabores de cada domingo. Muito fiel às cores quentes, só por uma vez dei oportunidade a um gelado em tons de azul feito especialmente para mim pela mulher do Sr. Paulo. Era de mirtilo. O verde nunca teve essa sorte comigo, mas sei que a Glória o experimentou. Era a única das meninas lá da rua que escolhia sempre os mesmos sabores que eu, apesar de o fazer com uma semana de atraso, mas no dia em que partiu, provou o único sabor que sabia que eu nunca iria experimentar. Só mais tarde soube o porquê.

Publicado no jornal O Carrilhão, a 1 de novembro de 2016

Oh Glória, arredonda a saia – II

Sentavamo-nos todos os dias na paragem ao fundo da rua, com as nossas mochilas, identificadas a caneta de feltro azul para infelicidade das nossas mães, às costas, sempre repletas de alegria e de entusiasmo por mais um dia de escola. Eu tinha por hábito levar comigo a última revista de banda desenhada da Turma da Mônica que o Sr. Júlio recebera na papelaria, para ler durante a hora de almoço (ou melhor, para reler porque só naquele quilómetro de relva que separava a porta do Sr. Júlio da porta da D. Manuela, a minha mãe, despachava as aventuras do Cebolinha e da Magali a toda a velocidade para poder chegar a casa e dedicar-me exclusivamente à grande protagonista e ao seu coelhinho azul, o Sansão, na chaise longue da sala); a Glória levava a sua saia azul (sempre que a mãe não a obrigava a levar umas calças de ganga ou outra qualquer saia que tivesse no armário) e o seu discman sarapintado a caneta permanente, para não ter que falar com os outros colegas da escola no recreio e na hora de almoço. Naquela altura fazíamos desenhos em todo o lado, menos nas paredes de casa.

Aquele breve período de tempo, enquanto a carrinha verde-garrafa da escola básica não chegava, era um dos poucos momentos que eu e a Glória partilhávamos só as duas, já que as nossas mães, por criarem as filhas sozinhas e fazerem questão de estar em casa à hora em que regressávamos, saiam ainda de madrugada para trabalhar. As restantes meninas da nossa rua iam todas de carro com os pais mais perto da hora do toque. Imaginá-las no banco de trás do carro, sentadas nas cadeirinhas de segurança, resultava, com frequência, numas boas gargalhadas. Sentadas no banco da paragem, pontapeávamos pedrinhas de um lado para o outro da estrada, dizíamos adeus de cada vez que o carteiro passava e conversávamos muito uma com a outra. Foi assim que me tornei confidente da pequena Glória. Foi assim que fui uma das pessoas que mais sofreu quando ela, mais tarde, decidiu partir e não levar a saia azul consigo.

Num desses dias, em pleno novembro e com uma chuva miudinha a cair sobre as nossas cabeças, o cão que vagueava pela nossa rua teimou em acompanhar-nos até à paragem e, decidido, acomodou-se aos nossos pés. Tinha um tom castanho avermelhado, umas orelhas grandes e sempre descaídas e estava quase sempre de língua de fora. Só parava quando nos sentia, a nós e às outras meninas da rua, descansadas ou no conforto das nossas casas. Dávamos-lhe comida sempre que podíamos, embora a maior parte das vezes fosse às escondidas das nossas mães, que tinham medo que o cão vadio, como lhe chamavam, nos pegasse alguma coisa, alguma doença (umas pulguitas fazem mal a alguém?). Para nós, não era vadio coisa nenhuma, era o cão da nossa rua, o nosso cão, e estávamos em processo de lhe escolher um nome. Como devem calcular, não foi uma tarefa fácil já que cada uma de nós tinha a sua opinião e argumentos fortes para a sustentar. Miúdas.

Ali estava ele, sossegado, sem pressas, quase adormecido, só levantando a cabeça por breves segundos quando parávamos de falar. Estava embalado pelas nossas palavras e, assim que as interrompíamos por algum motivo, estranhava. Gostava da nossa companhia, do nosso barulho alto e ininterrupto (volto a dizer, miúdas) no meio da rua, gostava que lhe passássemos a bola com que brincávamos para lhe dar uns toques (por mim, tinha nome de jogador da bola, estava mais do que visto que tinha aptidão), mas detestava festinhas. As nossas palavras, as nossas brincadeiras e o saber-nos seguras eram os únicos afetos que pretendia. Por isso, ali estava ele aos nossos pés, sem que nenhuma de nós se atrevesse a baixar o braço para lhe afagar o pêlo. E eu bem que queria. Já a Glória era das poucas que respeitava essa decisão. Não tentava sequer tocar-lhe. Agora percebo. Eram em tudo semelhantes. A Glória preferia sentar-se a ouvir e a observar-nos do que participar ativamente nas nossas brincadeiras. Podemos dizer que era a nossa espectadora mais assídua, a seguir ao cão.

Chegada a carrinha verde-garrafa, o nosso pequeno amigo afasta-se para nos dar passagem e senta-se nas patas de trás a olhar para nós, esperando pelo momento em que nos sentamos e colocamos o cinto de segurança (sempre protetor, sempre). Assim que o condutor arranca (confesso que não me recordo do nome do senhor, tivemos a companhia de muitos durante os quatro anos de escola primária), ele parte sem destino. Sabíamos que não era exclusivo da nossa rua, que tomava conta de muitos mais meninos por essas ruas fora, mas mesmo assim dissemos-lhe adeus, esperando voltar a vê-lo quando regressássemos.

Foi ao olhar para ele que a Glória me confiou um dos seus desejos. Também ela queria partir sem destino um dia, andar por aí a observar o mundo e o mundo dos outros. Na altura, achei que a ideia fazia todo o sentido para a nossa contadora de histórias, precisava de matéria-prima para as suas composições e de conhecer novas cores e texturas. Mal sabia eu que a ideia dela era deixar tudo para trás e aventurar-se num mundo a preto e branco.

Oh Glória, arredonda a saia – I

Andava quase todos os dias com uma saia azul que lhe ficava uma mão abaixo dos joelhos. Uma saia muito rodada, tingida do azul do anoitecer que adivinha um dia seguinte muito quente. Como eu gostava de olhar para aquela saia e pensar que combinava com o azul do céu que vai engolindo aos poucos o cor de laranja de um dia de verão. Para mim, a Glória sempre foi sinónimo de anoitecer.

Embora passasse os dias a fazer piruetas para fazer rodopiar a saia e observar o seu movimento giratório, as suas voltas e contravoltas, era raro vermos a Glória a correr no meio da rua juntamente com as outras crianças. Preferia ficar no nosso banquinho de eleição e só se levantava para apanhar alguma flor, cuja cor lhe despertara a atenção (ou os sentidos), despindo-a de pétalas, logo de seguida. Dispunha uma a uma no seu colo, em cima da saia azul. Olhar para ela naqueles momentos era como contemplar um céu cheio de nuvens em tons de vermelho, cor de laranja ou amarelo.

Sempre foi a menina mais cabisbaixa e reservada de toda a rua, vivendo num mundo paralelo ao nosso. Sim, também pintava as solas brancas dos ténis com marcadores, como nós, mas sempre com flores. Mais tarde aprendi que quem desenha flores com alguma frequência tem uma tristeza do tamanho do céu azul dentro de si. Gostava de ficar a olhar para nós durante o dia, a imaginar pequenas histórias em que nos movia consoante a sua imaginação, quase como se fôssemos peças de um jogo de tabuleiro. Tal como a saia azul, a sua imaginação não parava de andar às voltas. Um pouco antes das nossas mães nos chamarem para jantar, cada uma à sua porta, partilhava connosco as aventuras que aquele dia nos tinha reservado.

O nosso grupo de cinco meninas sentava-se no banco junto dela (umas tinham sorte e ocupavam os lugares sentados, outras encavalitavam-se nas costas de madeira desgastada do mesmo) e ouvia muito atentamente o que a pequena contadora de histórias de saia azul tinha para nos dizer. Tão depressa nos transportava para mundos circulares em tons de amarelo, nos quais uma de nós corria loucamente em cima de uma bola de plástico de grandes dimensões da qual não podia cair sob o risco de vermos a nossa rua atingida por um meteoro, como nos elevava ao estatuto de cavaleiras das nuvens, que se moldavam em formato de cavalo assim que avistavam as nossas capas cor de rosa e as nossas espadas feitas com ramos de árvores, cheios de folhas verde vivo.

Tanto eu como as outras meninas adorávamos a Glória do anoitecer. Com ela tudo era colorido, exceto ela própria. Ainda hoje desconfio que via a saia em tons de azul escuro, um azul de noite cerrada.

 

Alice

 

“Todos os nomes”

Desde pequena que os nomes próprios exercem um certo fascínio sobre mim. Os seus significados não me interessam por aí além mas as diferentes combinações possíveis entre eles podem dizer muito sobre uma pessoa. Todos conhecemos uma Vanessa Soraia que, apesar da agressividade inerente ao nome, é uma rapariga às direitas.

Quando vivia agarrada às esferográficas azuis e desenhava conjuntos e conjuntos de pessoas, “manifestações” como o meu avô lhes chamava, identificava sempre as bonecas com um nome. Cada uma tinha a sua identidade, uma placa com o nome, uma espécie de BI em cima da cabeça. Não podiam era existir repetições, o que exigia uma ginástica mental intensiva para uma jovem na puberdade, que, muitas vezes, “americanizava” ou “abrasileirava” os nomes, por puro desenrascanço.

Agora que continuo de roda das mesmas esferográficas mas com outro propósito, a escrita (talvez possam ser manifestações também, mas de letras), tenho a cabeça a fervilhar de ideias, de projetos e de sonhos que, como não podia deixar de ser, também envolvem nomes próprios. Existem estórias começadas sempre em torno de um nome, há outras que se desenvolvem compulsivamente em torno da personagem principal, já que o diálogo causa-me um certo desconforto…um, uno, único. Uma estória, um nome. Um nome, uma estória.

Decidi trazer à luz do dia a Alice, a primeira metade deste projeto.

Só vos consigo revelar que será uma narradora omnipresente, ainda não sei se será loura ou morena, alta ou baixa, com sardas ou sem sardas. Também para mim será uma descoberta. Prometo que não vai demorar nove meses a nascer.

Por enquanto, a Glória, a minha Glória que surgiu depois de ouvir a música homónima da Patti Smith em modo repeat, vai continuar nas linhas de um caderno. Mas a Alice há-de chamar por ela.

Por fim, e coincidência ou não, um dos meus livros favoritos dá título a este texto. Chama-se “Todos os Nomes”, de José Saramago, e passa-se num notário. Sem nada a acrescentar.