Não há estrelas no céu

Não sei o que são, o que significam, nem o que poderão vir a revelar. Apenas sei que, nesta meia-luz em que estou envolvida, só oiço o crepitar da lareira enquanto vão aparecendo uns pontos brilhantes, que parecem estrelas, no alcance daquilo que o meu olhar tenta focar. Fecho os olhos, contemplo a escuridão (sim, essa, que ao contrário do que pensei, poucas respostas me tem trazido nestes anos de ausência), volto a abri-los, volto a fechá-los, esfrego-os com umas mãos frias e ressentidas com a distância a que estão da lareira, e num último levantar de pálpebras observo os objetos, imagens e respetivas representações que me rodeiam. Também aqui não encontro soluções. Tem sido assim todos os dias desde que decidi sair de casa, sair do conforto do meu mundo, e deixar tudo para trás das costas sem pensar duas vezes. Não que esse tudo represente uma grande bola de pessoas e coisas, mas tem em si a única amizade que alguma vez fui capaz de conquistar. A Alice.

Este planetário em que hoje se tornaram os meus olhos relembra-me as noites passadas com a minha mãe a ler-me pequenas histórias de galáxias distantes, de estrelas que iluminavam as noites de outras crianças, numa espécie de Via Láctea como a nossa, mas diferente. Não havia um dia em que não quisesse ser astronauta, simplesmente para poder observar todas as estrelas deste mundo e de outro. Para uma criança incapaz de se contentar com as paredes da sua própria casa e com os limites da sua cidade, como fui outrora, só pisar a Lua e Marte nunca seria suficiente.

Relembra-me também a ida ao planetário com os meus colegas da escola, com a Alice. Levámos cada uma a sua manta escondida dentro das mochilas da escola sarapintadas de caneta de feltro para, depois de assistirmos a uma palestra sobre o sistema solar e enquanto o resto da turma almoçava, nos deitarmos debaixo da cúpula estrelada. Uma cúpula de um azul-escuro, quase preto, que representava a noite cerrada que eu tanto gostava de ver pela janela do meu quarto, repleta de pequenos pontos brilhantes agrupados naquilo a que se dava o nome de constelações, como estávamos a aprender nas aulas daquele ano. As estrelas, as mesmas sobre as quais a minha mãe teimava em afirmar que eram a representação de todas as pessoas boas que já tinham partido da Terra. Eu, mesmo em tenra idade, sabia que tudo não passava de uma fantasia, que na realidade não era bem como a minha mãe dizia, mas deixava-a alimentar a ideia e continuar a contar-me histórias sobre cada uma das estrelas da nossa família. Especialmente as do meu pai.

Como a Alice entendia pouco de constelações e limitava-se a gostar de observar o brilho que a luz das estrelas emanava, estendemos as mantas e desenhámos com os dedos no ar as nossas próprias constelações, com os formatos mais incríveis e disparatados possíveis. A minha favorita foi o mapa da nossa cidade que a Alice desenhou, mesmo no centro da cúpula. O ponto principal era a nossa escola e quatro pontos para a direita depois, lá estava a nossa rua, na qual as duas estrelas mais brilhantes eram as nossas casas. Perdemo-nos em gargalhadas quando chegámos à infantil conclusão de que tanto brilho só podia ser proveniente da bijuteria que as nossas mães insistiam em utilizar. Os grandes brincos redondos com uma pequena flor no centro da mãe da Alice e o colar de contas em prata que a minha mãe só tirava para dormir e tomar banho.

Sair da escuridão, da noite em que teimosamente insisti em viver ao longo destes anos todos, não será tão fácil quanto esta pequena viagem à memória de outros tempos. Embora ajudem, não me vão bastar estes pequenos pontos brilhantes que por momentos invadiram o que tenho pela frente (agora e no futuro), muito menos o meu eu astronauta. Abrir as cortinas das janelas e deixar o sol entrar vai continuar a ser a maior dificuldade dos meus dias, voltar a viver num mundo com maior saturação, com cores vivas a destacarem-se em cada pormenor, vai continuar a causar-me desconforto. Talvez bastem a minha mãe e a Alice e a ideia de as voltar a encontrar. Mas ainda não sei, por enquanto a nébula dos meus olhos vai sobrepondo-se às estrelas. E este passa a ser mais um final de dia em que não fui capaz de sair destas quatro paredes, mais um final de dia em que a única interação que tive foi com um maço de cigarros cravado ao meu vizinho da frente, mais um final de dia a preto e branco.

Glória

Publicado n’O Carrilhão, a 15 de fevereiro de 2017.

Querida Glória

Querida Glória.

É Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Prepara-te que por aqui os rituais da véspera estão a ser uma loucura.

Passados dez anos, a minha mãe lá decidiu regressar a casa da minha avó para passar um Natal muito diferente dos anteriores. A minha ausência frequente nesta época do ano agravou ainda mais o afastamento entre as duas e só veio ajudar a criar as condições ideais para que se acomodasse às quatro paredes daquela que ainda é a nossa casa, encaixada nas velhas almofadas do sofá, debaixo de uma mantinha, rodeada por caixas de papel de alumínio daquele chinês take-away de torcer o nariz (sim, aquele que já existia quando éramos miúdas), e com um qualquer filme como banda sonora de fundo. Na verdade, ela só vê os primeiros cinco minutos, mas está sempre a dizer que já viu o Armageddon umas vinte vezes e que o Bruce Willis vai ser sempre um dos homens mais charmosos à face da terra (vão se lá perceber as mães); no entanto, aposto que se lhe perguntar o que é que acontece ao Ben Affleck lá pelo meio (vão se lá perceber as filhas), ela não vai fazer a mais pálida ideia.

Engendrei o reencontro todo na minha cabeça, mas foi mais simples do que estava à espera. No meio de toda a casmurrice (das duas, sempre das duas… lembras-te de comentar contigo que se fossem mãe e filha não eram tão iguais? Continuam tal e qual.), lá cederam à minha insistência e recordaram o porquê de sempre terem gostado tanto uma da outra e tudo o que já ultrapassaram juntas. Um abraço, uns quantos beijinhos e muita choradeira depois, lá selaram o acordo e combinaram que a minha mãe só tinha que levar umas azevias e conseguir com que eu fosse também (ao que parece, estiveram até ao último minuto à espera de um qualquer telefonema do meu chefe a marcar uma reunião no outro lado do mundo, quando eu lhes disse uma mão cheia de vezes que tinha tirado férias este ano). Tudo fácil, aparentemente.

Contudo, não seria um Natal próspero e feliz sem alguma confusão e berreiro à mistura. Estamos cá há um par de horas e eu não devia ter pensado que ia conseguir estar a tarde toda à lareira com as minhas primas mais novas, a contar histórias antigas e a magicar jogos para as longas horas que ainda faltam enfrentar até chegar o momento de rasgar papel. Deveria ter percebido que isso nunca iria acontecer, a partir do momento em que a minha mãe passou a ombreira da porta e viu a minha tia a carregar uma travessa cheia de filhós e fatias douradas, cujo cheiro ainda se sentia no ar. Toda aquela atmosfera a fritos deixou logo a senhora minha mãe num alvoroço interior, capaz de virar do avesso o seu sistema nervoso. Depois chegaram os meus primos mais velhos e trouxeram com eles os seus filhos bebés, cujos passatempos se dividiam entre chorar, atirar comida ao chão e gritar uns com os outros. Para quem não come fritos (sim, o crepe do chinês é a exceção, pelo menos a única de que tenho conhecimento) e não está propriamente desejosa de ser avó, começou tudo a correr como menos esperava. Está, neste momento, sentada no sofá agarrada ao dedo indicador que cortou enquanto preparava as couves para o jantar e já me expulsou da sala umas quantas vezes. Não quer que me preocupe e vai lançando uns sorrisos amarelos ao resto da família, para que pensem que está a adorar ter duas das pequenitas aos seus pés, a abanarem os barretes de Natal com guizos que têm na cabeça.

Mais cinco minutos e o desespero vai levá-la em direção à garrafa de vinho do Porto que está em cima da mesa, a encher um cálice e a bebê-lo de um trago só. Seguido de outro. Esperemos que substitua o terceiro por uma filhó polvilhada em excesso por açúcar e canela. Ou duas, ou três. Sei que a partir do momento em que ceder ao aroma impregnado no ar, as fatias douradas e as azevias também irão parar à sua frente. Para terminar, imagina só o que vai acontecer quando souber que queremos ir todos em peregrinação ver as várias fogueiras a arderem pela aldeia. Espero que por essa altura o vinho do Porto já faça efeito.

Querida Glória, é Natal e eu decidi cumprir a nossa tradição ao escrever-te uma carta. Desculpa-me a loucura destas palavras escritas em cima do joelho, mas tenho saudades de partilhar todos estes momentos contigo e de me rir deles ao teu lado. E não há nada como os descrever enquanto vão acontecendo, enquanto a minha mãe sucumbe à confusão e ao não menos caótico espírito natalício.

Um Feliz Natal. Onde quer que estejas.

Alice

Mãe de Copas

Durante muitos anos desconfiei que a minha mãe se tivesse inspirado no clássico de Lewis Carroll para me ter dado o nome de Alice, já que todas as máscaras de Carnaval entre os 4 e os 10 anos foram compostas por um vestido azul e por um avental branco. Não há dissociação possível, como devem calcular. Há sempre alguém que acha que todas as Alices deste mundo bebem conteúdos desconhecidos de garrafas desconhecidas, numa espécie de “bota abaixo!”.

Quando entrei na adolescência a minha teoria deu lugar a outra suspeita – não havia dia em que a senhora minha mãe não sentisse necessidade de limpar o pó às estantes lá de casa, o que, regra geral, sobrava sempre para a mim. Vistas bem as coisas, a associação à Alice no País das Maravilhas já não era tão notória quanto uma possível associação ao uniforme cliché e hollywoodesco das empregadas domésticas. Era realmente uma pena não ter um buraco por onde me atirar nesses momentos.

Somadas as duas teorias, juntamente com as aspirações a Marechal do exército da minha mãe, atrevo-me a dizer que tinha uma verdadeira Rainha de Copas lá por casa. Para os mais preocupados, a minha cabeça ainda está no sítio, descansem. Felizmente, a parte perversa sustentada por um carrasco ficou pelas páginas do livro. Mas nem tudo são galões.

Crescemos as duas, os livros e os filmes agora são outros.

Tenho perto de trinta anos e a minha rainha quase sessenta. Cada uma funciona à sua maneira, no seu habitat natural, consolidando uma teia de relações de acordo com as necessidades afetivas que tem. Foi com a minha mãe que aprendi a palavra “desapego”. Juntamente com essa, ensinou-me a não nutrir qualquer simpatia por todas as palavras que implicassem uma união, indo o leque de escolhas de “cola” a “velcro”. Nada de somas. Confesso que aqui me deu um certo gosto fugir à matemática.

Sei que esta batalha muito singular, com grande foco na primeira pessoa, se deve às suas experiências no plural. Um passado plural enfraquecido, triste, desgostoso e, acima de tudo, dividido, mas que resultou numa unidade de valor – foi ela quem me ensinou a importância do eu.

Nunca fomos muito chegadas. Cúmplices por demais (menos quando envergava vestido e espanador), melhores amigas, muito confidentes. Contudo, com uma acérrima aversão a demonstrações de carinho, quer em público, quer em privado. A partilha do cobertor no sofá era o ponto alto do nosso afeto, dia após dia.

Estando cada uma a viver na sua casa, a necessidade de estarmos uma com a outra aumentou uma vez que já não existe no dia-a-dia de ambas aquela segunda parte que nos ampara, que nos auxilia e que nos encontra soluções em todos os momentos. Hoje foi dia de irmos ao supermercado juntas.  Se pensarem bem, ir ao supermercado não acresce nada de novo ao nosso eu intelectual mas permite-nos desligar o botão do desgaste e ter umas poucas horas de conversa, enquanto se vasculham as melhores frutas da época, os detergentes mais baratos e a pasta de dentes em promoção. E foi aí que fui surpreendida.

Estávamos as duas num doloroso processo de escolher iogurtes (com ou sem pedaços, os de piña colada são bons para levar para a praia, os com pedaços são bons para comer ao pequeno-almoço, agora há uns novos com bolachas, mas no fim vão sempre os de morango na cesta), quando passam por nós outros dois exemplares de mãe e filha, por volta dos seus trinta e seis anos, respetivamente. A mãe, jovem loura e de fato vestido, transparecia um cansaço feliz. Era notório que tinha acabado mais um dia de trabalho e que a primeira coisa que fizera fora pegar no carro e ir apanhar a filha à escola. A filha, igualmente loura, de olhos muito verdes, e com umas jardineiras rasgadas nos joelhos que condiziam com uns ténis esfolados nas pontas, saltitava ininterruptamente, sem uma pausa para descansar.

Embora fizesse um esforço enorme, e visível, para que a pequena parasse quieta, a mãe não queria que a brincadeira acabasse. E sorria. Sorria para os iogurtes (a tendência, naquele caso, eram os frutos vermelhos) e sorria para a filha. Um sorriso rasgado, uns olhos bem dispostos, umas bochechas vermelhas e uma breve gargalhada espalhada pelo corredor, de vez em quando. Ao contrário destes dois exemplares de que vos falo, pairava sobre elas uma nuvem de carinho, daquelas que parecem algodão doce. Na vez em que largou uma gargalhada mais sonora que as restantes, pegou na filha ao colo, que logo prendeu os braços no seu pescoço.

Tal como eu, também a minha mãe havia contemplado todo aquele momento de ternura, o que lhe causou um conflito interior. Começou por coçar o antebraço direito, movimento que faz sempre que está nervosa, para, logo de seguida, mudar de corredor. Entrámos no mundo dos detergentes, dos produtos para limpar o pó…no inferno, portanto. Foi aí que, rodeada dos meus pesadelos de adolescente com borbulhas e de headphones nos ouvidos, a minha mãe decidiu somar o seu abraço com o meu. Aparentemente, porque mais pareceu um daqueles cumprimentos efusivos à espécie masculina, em que mostram (tentam mostrar) o quão viris são ao bater com os peitorais uns nos outros. No todo da sua trapalhice, foi um abraço sentido como já nenhuma de nós sentia há muitos anos.

Foi nesta matemática que voltei a pensar nela ao fim de tantos anos, não só como uma amiga, a quem desenrolamos o pergaminho das nossas línguas da forma mais irritante possível e tudo num fôlego só, não só como a mãe tirana, que nos obriga a tudo e mais alguma coisa e nos impede de tudo e mais alguma coisa, mas como numa mãe lutadora, cheia de vontade de viver, de conhecer o mundo fora dos detergentes, numa mãe que quer continuar a dar tudo o que tem ao produto da sua multiplicação, numa mãe que já não quer receber, apenas dar. Uma mãe renascida. Uma verdadeira mãe de copas.

Qualquer dia apresento-vos e partilho convosco mais algumas das nossas aventuras, que acredito que serão em maior número daqui para a frente.

Fica também feito o aviso à navegação – hoje à noite vamos sair. Afinal de contas (então mas não querias fugir à matemática?, perguntam vocês), um abraço sentido deve ser sempre motivo de celebração.

Até à próxima.

Alice