Um bom dia e um café

No café a que vou todas as manhãs, é sempre o mesmo senhor a atender-me. É alto, um pouco forte (diria que é da idade, de um acumular de cerveja e de uma grande falta de mexer as pernas ao longo dos últimos anos), veste uma camisa branca de manga curta, daquelas que a maioria das mulheres abomina, mas que naquele contexto fazem todo o sentido e são parte do cenário, e transpira bastante da testa. São nove da manhã e ele transpira. Transpira para dar conta do recado. Transpira para atender todas as pessoas que por ali param, aprumadas para mais um dia de trabalho. Transpira para que o senhor, assente num fato cinzento impecavelmente engomado e de gravata de seda preenchida com pequenas bolas, se sente confortavelmente e desfrute do único momento do dia em que o telemóvel ainda não toca. Transpira para que aquele marido, que apenas enfiou um camisolão cabeça abaixo, escovou os dentes e deu um jeito trapalhão com as mãos ao cabelo, leve um grande pão de Mafra, cortado às fatias, para o pequeno-almoço da esposa, que deixou ainda enrolada aos lençóis a sorrir de olhos fechados, naquele que é o sorriso mais caloroso e ternurento dos seus dias. Transpira para que a fila de jovens estudantes, de olheiras fartas e carregadas, de unhas roídas, que batiam o pé numa sintonia quase ritmada e que acompanhava o seu aborrecimento com a espera, arregale os olhos de prazer ao ver chegar aquele café salvador, o combustível para mais um dia no meio de páginas.

Quando chega de lá de dentro uma fornada de croissants, de queques, de bolos cujo quente emana no ar e tem um cheiro de fazer despertar as narinas e de aquecer a barriga, é o primeiro a colocar umas luvas e a despejá-lo na vitrina ordeiramente, para que o apetite de todas as pessoas ao balcão fique ainda mais animado. Será sempre uma boa dose de conforto logo pela manhã para quem não resistir ao aroma e ao calor que se instalaram naquele momento. Vê as pessoas, aquelas pessoas por quem se sente responsável e cujas expectativas não quer defraudar, a lamberem os lábios e de olhos a brilhar e não hesita em sorrir. É esse o seu conforto, o pagamento por aquelas horas (já lá vão umas quantas) a trabalhar.

Limpa a transpiração da testa com a parte de cima do antebraço, num movimento que se arrasta até à parte de trás da mão, ao mesmo tempo em que entrega o troco daquela bica e daquele pão com sementes, só com fiambre de peru, sem manteiga, só com queijo, sem códea, bem misto, a nadar em manteiga, com um queijinho fresco, uma torradinha, se não se importa. Na subtileza do seu encolher de ombros pergunta muitas vezes se não têm dinheiro trocado. Amigos, amigos, negócios à parte. Cada moedinha conta ali e as notas de cinco estão a acabar. Interiormente, só pede para que acabem de vez com os pagamentos em multibanco só a partir de cinco euros, uma limitação contra a qual muito se debateu, mas que nada pôde fazer. Uns mandam, outros obedecem, não é o que dizem por aí? Com as pessoas que por ali passam diariamente, a quem já reconhece a voz, o pedido e alguns trejeitos, ainda perdoa aqueles cinco cêntimos que caíram para o fundo da mala e que teimam em lá ficar e aqueles vinte cêntimos que ficaram na mesa do escritório, mas que tem a certeza que acabarão na sua caixa ao final do dia.

Foi num desses dias, em que decidi descer as escadas do edifício onde trabalho só com umas moedas a balançarem no bolso das calças e em que ele me fez lá voltar essa tarde com vinte cêntimos e um cumprimento diferente do habitual (recebi um boa tarde, em vez do efusivo bom dia com que presenteava todas as pessoas), que a vi. Sentada numa cadeira terrivelmente irrequieta e já com quase a largura de uma recarga de folhas debaixo de uma das pernas, puxava os cabelos que lhe caíam pela cara para trás, tentando em vão prendê-los no enorme gancho com que sempre agarrara o seu forte cabelo castanho-claro. A cara pendia sobre a mesa, impossibilitando um vislumbre que fosse da sua expressão naquele momento, e as suas mãos seguravam um envelope. Azul, sem selo, destinatário e remetente escritos à mão. As mãos encontravam-se irrequietas como aquela maldita perna da cadeira, à qual já tinha encostado a sua própria perna tentando equilibrar-se da melhor forma. Seguravam e viravam o envelope a uma velocidade nervosa, levantavam a ponta colada sempre com a mesma cadência de movimentos do polegar, um claro sinal de nervosismo. Por duas vezes o pousou na mesa, mas apenas por uma vez deu um gole no café que tinha à sua frente. Pelo esgar que se seguiu, presumo que estivesse já frio, contrabalançando com o quente que deveria sentir dentro de si. Não me dirigi a ela, mas sei do que se tratava, ou melhor, de quem se tratava. Era a Glória a dar notícias.

Fui-me embora. Não me aproximei da D.Matilde, mas acenei ao senhor ao balcão. Sorriu para mim e desejou-me um resto de um bom dia. Espero que ela também consiga ter um.

Alice