“Todos os nomes”

Desde pequena que os nomes próprios exercem um certo fascínio sobre mim. Os seus significados não me interessam por aí além mas as diferentes combinações possíveis entre eles podem dizer muito sobre uma pessoa. Todos conhecemos uma Vanessa Soraia que, apesar da agressividade inerente ao nome, é uma rapariga às direitas.

Quando vivia agarrada às esferográficas azuis e desenhava conjuntos e conjuntos de pessoas, “manifestações” como o meu avô lhes chamava, identificava sempre as bonecas com um nome. Cada uma tinha a sua identidade, uma placa com o nome, uma espécie de BI em cima da cabeça. Não podiam era existir repetições, o que exigia uma ginástica mental intensiva para uma jovem na puberdade, que, muitas vezes, “americanizava” ou “abrasileirava” os nomes, por puro desenrascanço.

Agora que continuo de roda das mesmas esferográficas mas com outro propósito, a escrita (talvez possam ser manifestações também, mas de letras), tenho a cabeça a fervilhar de ideias, de projetos e de sonhos que, como não podia deixar de ser, também envolvem nomes próprios. Existem estórias começadas sempre em torno de um nome, há outras que se desenvolvem compulsivamente em torno da personagem principal, já que o diálogo causa-me um certo desconforto…um, uno, único. Uma estória, um nome. Um nome, uma estória.

Decidi trazer à luz do dia a Alice, a primeira metade deste projeto.

Só vos consigo revelar que será uma narradora omnipresente, ainda não sei se será loura ou morena, alta ou baixa, com sardas ou sem sardas. Também para mim será uma descoberta. Prometo que não vai demorar nove meses a nascer.

Por enquanto, a Glória, a minha Glória que surgiu depois de ouvir a música homónima da Patti Smith em modo repeat, vai continuar nas linhas de um caderno. Mas a Alice há-de chamar por ela.

Por fim, e coincidência ou não, um dos meus livros favoritos dá título a este texto. Chama-se “Todos os Nomes”, de José Saramago, e passa-se num notário. Sem nada a acrescentar.